A Bitget foi hackeada em 24 de setembro de 2026, e o roubo de criptomoedas, revisado, chegou a US$ 387,5 milhões. Nenhum cliente perdeu saldo, porque o fundo de proteção da corretora cobriu o rombo. Para o cliente, o custo foi de 4 a 8 dias sem poder sacar. Recomposto pela corretora, no valor que ela escolheu, o fundo soma US$ 309 milhões, menos que o roubo que acabou de pagar.
A primeira estimativa do roubo, noticiada no Brasil pelo Criptofácil no dia do ataque, foi de US$ 351,6 milhões, cerca de R$ 1,86 bilhão. Ela deixava de fora as transferências feitas pelas redes Zcash e TRON. Com elas, a Finance Magnates revisou o valor para US$ 387,5 milhões ainda naquele dia. São US$ 35,9 milhões a mais que o número que circulou primeiro.
Para quem tinha saldo na Bitget, nada sumiu da conta. As carteiras frias, que guardam a chave fora da internet, ficaram intactas. Como a corretora tinha mais de US$ 6 bilhões sob custódia, o roubo equivale a menos de 6,5% do que ela guardava. Depósitos e negociação seguiram funcionando, e os saques pararam e voltaram de 4 a 8 dias depois.
Quase nada do dinheiro levado foi bloqueado: até 3 de outubro, só US$ 821 mil estavam congelados, pelo balanço do 247WallSt. Quem cobriu o rombo foi o Fundo de Proteção ao Usuário, uma reserva da própria Bitget.
Pela versão da CEO da Bitget, Gracy Chen, o ataque começou numa falha de um software de terceiros que a corretora tinha comprado. Pela falha, o atacante roubou credenciais internas e, com elas, mandou pedidos de saque falsos. O alvo foi o sistema de retaguarda que administra as carteiras da corretora, atingido em 7 redes, segundo o BleepingComputer. A porta de entrada foi um fornecedor, um elo que o cliente não vê nem escolhe.
Quem move uma criptomoeda é a chave privada, o código que autoriza cada transferência. Uma corretora reparte a cripto dos clientes em carteiras, conforme essa chave fica mais ou menos exposta à internet. Na carteira quente, a chave fica numa máquina conectada e assina saques na hora. A morna guarda a reserva que reabastece a quente, com mais etapas de aprovação, e a fria mantém a chave fora da rede. O guia de onde guardar criptomoedas detalha cada carteira, da corretora à carteira própria.
O ataque drenou a quente e a morna. Com as credenciais internas, o atacante entrou como um funcionário de crachá na mão e pediu ao caixa que pagasse. A carteira quente obedeceu, porque a ordem chegou pelo mesmo caminho das ordens legítimas. A fria escapou: nenhuma credencial interna faz uma chave fora da rede assinar na hora.
Os saques voltaram moeda por moeda, na ordem que a corretora escolheu, segundo o BleepingComputer:
| Ativo | Saques de volta em | Dias sem saque, desde 24/9 |
|---|---|---|
| Bitcoin | 28/9/2026 | 4 |
| Ether | 29/9/2026 | 5 |
| USDT | 30/9/2026 | 6 |
| Demais ativos | 2/10/2026 | 8 |
Quem tinha bitcoin esperou 4 dias, e quem tinha uma moeda fora das três primeiras esperou 8. Nesse intervalo, o saldo só podia ficar na Bitget ou ser trocado por outra moeda dentro dela.
O saldo existia durante a espera. Em 29 de setembro, a Bitget publicou a prova de reservas, que compara o que ela guarda com o que deve aos clientes. O resultado geral foi de 131%, segundo o 247WallSt, com 142% em bitcoin e 110% em ether, a menor folga das três.
Saldo em corretora é um crédito contra ela, e a Bitget pagou esse crédito inteiro. Pagou na data e na ordem que ela mesma escolheu, mesmo com a reserva geral acima de 100%.
Antes do ataque, o fundo tinha mais de US$ 464 milhões, guardados em 5.500 BTC, segundo a Finance Magnates. A Bitget declarava para ele um compromisso mínimo de US$ 300 milhões. Os US$ 387,5 milhões do roubo, divididos pelos US$ 464 milhões, dão 83,5% do fundo.
Depois do ataque, o fundo ficou abaixo de US$ 200 milhões, pelos números reunidos pelo 247WallSt. Até 30 de setembro, a Bitget o recompôs a US$ 309 milhões, cerca de 3.705 BTC. A corretora fixou o mínimo, ficou abaixo dele no ataque e o repôs no valor e no prazo que escolheu.
O fundo recomposto da Bitget, de US$ 309 milhões, fica US$ 78,5 milhões abaixo do roubo de setembro
O fundo recomposto cobre o mínimo com folga de US$ 9 milhões e não cobre um roubo igual ao último. A folga equivale a 2,9% do fundo. Como o fundo é guardado em bitcoin, o valor dele em dólares sobe e desce com o preço da moeda. Não sabemos para onde vai esse preço. Sabemos a conta: com o bitcoin 3% mais barato, o fundo cairia a US$ 299,7 milhões, abaixo do mínimo declarado.
O fundo funcionou em setembro, e isso conta a favor da Bitget. O que ele não é aparece ao lado do FGC, o Fundo Garantidor de Créditos, que protege o depósito bancário no Brasil. O FGC é uma entidade separada dos bancos, com regra pública e limite por depositante. Quem tem conta num banco que quebra sabe, antes da quebra, quanto recebe e de quem cobra.
O fundo da Bitget é uma reserva que a corretora cria, dimensiona, usa e recompõe quando decide. O cliente não tem direito a cobertura; tem a expectativa de que a corretora repita o que fez em setembro. Numa quebra ou num fechamento, o que pesa é outra regra: a separação entre o patrimônio do cliente e o da corretora.
A lista dos maiores roubos de criptomoedas publicada pela Forbes Brasil em setembro serve de régua para o fundo recomposto:
| Caso | Quando | Valor roubado | Acima do fundo recomposto da Bitget |
|---|---|---|---|
| Bybit | fev/2025 | US$ 1,5 bilhão | US$ 1,19 bilhão |
| Poly Network | ago/2021 | US$ 610 milhões | US$ 301 milhões |
| Ronin | mar/2022 | US$ 540 milhões | US$ 231 milhões |
| Coincheck | jan/2018 | US$ 530 milhões | US$ 221 milhões |
| Mt. Gox | 2011 a 2014 | cerca de US$ 500 milhões | cerca de US$ 191 milhões |
| Bitget, para comparação | set/2026 | US$ 387,5 milhões | US$ 78,5 milhões |
O maior caso, o da Bybit, equivale a 4,9 vezes o fundo recomposto, e até o menor dos cinco, o da Mt. Gox, passa dele. A lista não diz quem pagou cada roubo, e a tabela não supõe desfecho nenhum. A tabela mede escala. Um ataque leva o que havia na carteira atacada, e o fundo cobre o que a corretora quis guardar. As duas quantias são decisão da corretora, e nenhuma depende do cliente.
Para quem tem cripto em corretora, o caso deixa uma tarefa de inventário, e nenhuma parte dela depende de prever o próximo ataque:
- Quanto está em cada corretora, somado numa visão consolidada das várias corretoras. Um ataque atinge uma corretora de cada vez, e o que fica exposto é o saldo naquela.
- O que é giro e o que é guarda. O saldo usado para negociar tem motivo para ficar na corretora. O que fica parado por anos está lá por conveniência, e em setembro ficou até 8 dias sem poder sair.
- A prova de reservas do ativo que você tem, não só a geral. Em setembro, a folga do ether era de 10%, contra 42% no bitcoin, e os dois números são declarados pela própria corretora.
- A autocustódia como troca de risco: sai o risco da corretora e entra o de guardar sozinho a chave e o backup dela. A transferência para a carteira própria pode ser comunicada ao Coaf.
Num roubo do tamanho do de setembro, o fundo recomposto pagaria 79,7% do rombo: US$ 309 milhões de US$ 387,5 milhões. O resto teria de sair de dinheiro que a Bitget decidisse pôr além do fundo, e o saldo do cliente dependeria dessa decisão. Para a cripto guardada por anos, a escolha fica entre esse risco e o de cuidar sozinho da própria chave.
Fontes
- Finance Magnates: Bitget's $388 million hack could consume 84% of its protection fund (24 de setembro de 2026)
- Criptofácil: ataque à Bitget, as perdas em cripto e as carteiras afetadas (24 de setembro de 2026)
- BleepingComputer: Bitget resumes bitcoin withdrawals after $387.5 million crypto heist (2 de outubro de 2026)
- 247WallSt: Bitget rebuilt a $309 million protection fund after a $388 million hack (3 de outubro de 2026)
- Forbes Brasil: os maiores roubos de criptomoedas (30 de setembro de 2026)
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