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Tokenização de ativos: de onde vem o retorno de 18,6%

TATomás Argolo8 min de leituraCriptomoedas
Prédios comerciais do distrito financeiro de São Paulo

A tokenização de ativos no Brasil entregou retorno médio de 18,62% ao ano, segundo o RWA Monitor em 14 de setembro de 2026. Com a Selic em 13,75%, os quase cinco pontos de diferença são prêmio de crédito privado. A blockchain registra a operação; quem paga é a empresa devedora, e mercado secundário para sair antes do vencimento quase não existe.

18,6% ao ano e R$ 10 bilhões captados: o número existe e a pergunta não

O RWA Monitor, plataforma que rastreia ativos do mundo real registrados em blockchain no Brasil, mediu retorno médio de 18,62% ao ano entre os projetos da sua base. São 5.182 projetos e R$ 10,88 bilhões em captação acumulada, em levantamento divulgado em 14 de setembro de 2026. No primeiro semestre do ano, as emissões de tokens atingiram R$ 4,84 bilhões, crescimento de 122% sobre os R$ 2,17 bilhões do mesmo período de 2025.

A cobertura da semana reproduziu o dado sem fazê-lo trabalhar. Um portal segmentou os 18,6% por setor. Outro cobriu os 122% de crescimento. Nenhum perguntou de onde vem um retorno de 18,6% ao ano num país onde a taxa livre de risco é de 13,75%.

Quase cinco pontos percentuais acima da Selic fixada pelo Copom em 3 de setembro de 2026 compensam risco de crédito do emissor. O prêmio existe porque o devedor pode não pagar.

O que está dentro do token: debêntures e recebíveis, não imóveis

Tokenização de ativos funciona assim: uma empresa que precisa de capital emite um token numa blockchain e vende frações dele a investidores. O token representa um direito sobre um ativo ou um fluxo de receita da empresa. No vencimento, o investidor recebe o capital de volta com o rendimento combinado, se o emissor pagar.

A narrativa de mercado vende frações de imóvel, de safra e de arte. Os números do RWA Monitor mostram outra distribuição. Dos tokens analisados, 43% pagam entre 15% e 18% ao ano; 25% pagam entre 18% e 21%; 19% pagam entre 21% e 24%. São 87% dos projetos concentrados numa faixa de retorno que coincide, ponto a ponto, com a de debêntures e recebíveis de crédito privado no Brasil.

SetorRetorno médio ao ano
Seguros26,8%
Sustentabilidade25,0%
Eletromobilidade20,0%
Setor financeiro18,8%

Quem paga 25% ao ano em 'sustentabilidade' está financiando uma operação de crédito com blockchain como camada de registro, e não vendendo frações de parque eólico. Os setores com maior retorno são os que precisam oferecer mais para atrair capital, porque o mercado avalia o risco de crédito como proporcionalmente maior.

O mercado de dívida corporativa tradicional emitiu R$ 544,8 bilhões no Brasil em 2025, segundo a Anbima via InvestNews. A captação acumulada em tokens é de R$ 10,88 bilhões. O que está sendo tokenizado é o mesmo crédito de sempre com uma camada de registro nova por cima.

O prêmio sobre a Selic vem do emissor, não da tecnologia

O Copom fixou a Selic em 13,75% ao ano em 3 de setembro de 2026. O retorno médio dos ativos tokenizados no Brasil, segundo o RWA Monitor, é de 18,62% ao ano. A diferença é de 4,87 pontos percentuais.

Esse spread tem um nome no mercado de crédito: prêmio de risco. Spread é a diferença entre o retorno de um ativo e a taxa livre de risco, e ele compensa o investidor pela possibilidade de perda. Quem empresta ao Tesouro Nacional recebe a Selic, com risco soberano. Quem empresta a uma empresa privada via token recebe mais porque o risco de não receber de volta é maior. A empresa pode não pagar. O Tesouro, até prova em contrário, paga.

A blockchain funciona, nesse arranjo, como um log de sistema: registra cada transação com carimbo de tempo e endereço público. O que o log não faz é alterar o risco de crédito do ativo registrado. Se o emissor do token não pagar no vencimento, o investidor terá um registro impecável de um calote.

O retorno de 26,8% ao ano no setor de seguros indica que o emissor precisa pagar mais para atrair capital, porque o mercado avalia o risco de crédito como maior. O mesmo vale para os 25% em sustentabilidade e os 20% em eletromobilidade. A escala de retorno é a escala de risco.

Sem mercado secundário e com regulação em construção, o risco não tem preço

Quem compra um título de crédito privado no mercado tradicional pode revendê-lo antes do vencimento, geralmente com algum deságio. Quem compra um token de crédito privado, na maioria dos produtos disponíveis, precisa segurá-lo até a data de vencimento. Não há mercado secundário estruturado para a maior parte dos ativos tokenizados no Brasil.

A ausência de saída muda o perfil do risco. Um ativo sem liquidez para revenda vale, na prática, o que o emissor vai pagar no vencimento. Sem preço de mercado diário, o investidor não tem como saber, no meio do caminho, se o retorno prometido ainda compensa o risco que assumiu.

O volume de emissões cresceu sem esperar a infraestrutura. No primeiro semestre de 2026, as emissões sob a CVM 160, a instrução que regula ofertas públicas de valores mobiliários, somaram R$ 3,10 bilhões, crescimento de 129,4% sobre o primeiro semestre de 2025. O número de projetos regulados subiu de 6 para 26. As emissões privadas, fora da CVM 160, chegaram a R$ 1,18 bilhão com salto de 476,4%, e o número de projetos passou de 40 para 262 em um ano.

A CVM criou o GTT, Grupo de Trabalho de Tokenização, para construir o arcabouço regulatório do setor. O grupo está ativo e a agenda em andamento, segundo comunicado da comissão em 14 de setembro de 2026. Até a data desta publicação, não há aprovação formal para todas as estruturas que já operam. São 262 projetos privados lançados em seis meses, sem padronização de garantia, sem obrigação uniforme de divulgação e sem mercado secundário.

Tokenização de ativos: o que verificar antes de olhar o rendimento

O retorno de 18,6% ao ano existe e está documentado. O prêmio de quase cinco pontos sobre a Selic também. O que falta entre o dado e a decisão é a mesma pergunta que vale quando se avalia quem emite uma stablecoin e o risco que ela carrega: quem é o devedor. Num token de crédito privado, o devedor é a empresa que tomou o recurso.

  • Quem é o devedor. O token é uma camada de registro; por baixo há uma empresa que tomou dinheiro emprestado, e o nome e o balanço dela são responsabilidade do investidor.
  • Qual é a garantia. Se o emissor não pagar, o que resta ao investidor pode ser um colateral, uma cessão de recebíveis ou apenas a promessa.
  • Se existe mercado secundário para aquele token. A maioria dos produtos tokenizados no Brasil não tem, e quem compra sem liquidez de saída carrega o ativo até o vencimento.
  • Como o ativo é declarado à Receita Federal.

Na minha leitura, o retorno de 18,6% ao ano é um preço, e como todo preço de crédito, embute a possibilidade de que o devedor não pague. A blockchain registra a operação com eficiência. O risco de crédito, que é o que decide se o dinheiro volta, pertence a quem deve. O que o investidor precisa saber antes de aplicar é o nome da empresa que tomou o dinheiro, não o nome do token.

Perguntas frequentes

O que é tokenização de ativos?

Tokenização de ativos é o processo de representar um ativo, como uma debênture ou um recebível, por meio de um token numa blockchain. O token dá ao investidor o direito sobre o ativo ou sobre um fluxo de receita, e a blockchain registra a posse e as transações. No Brasil, o mercado de ativos tokenizados captou R$ 10,88 bilhões em 5.182 projetos, segundo o RWA Monitor em setembro de 2026.

Quanto rende a tokenização de ativos no Brasil?

O retorno médio dos ativos tokenizados no Brasil é de 18,62% ao ano, segundo levantamento do RWA Monitor divulgado em 14 de setembro de 2026. A distribuição é concentrada: 43% dos tokens pagam entre 15% e 18% ao ano, 25% pagam entre 18% e 21%, e 19% pagam entre 21% e 24%. Os setores com maior retorno são seguros (26,8% ao ano) e sustentabilidade (25%).

Tokenização de ativos tem risco?

Toda tokenização de ativos embute risco de crédito do emissor. O retorno médio de 18,62% ao ano registrado pelo RWA Monitor é quase cinco pontos acima da Selic a 13,75%, e esse prêmio compensa a possibilidade de o devedor não pagar. A maioria dos tokens não tem mercado secundário, o que impede o investidor de sair antes do vencimento. A blockchain registra a operação, mas não altera o risco do ativo.

A CVM regulamenta a tokenização de ativos no Brasil?

A CVM criou o GTT, Grupo de Trabalho de Tokenização, para construir o arcabouço regulatório. O grupo está ativo, mas não há aprovação formal para todas as estruturas que já operam. No primeiro semestre de 2026, as emissões sob a CVM 160 somaram R$ 3,10 bilhões, enquanto as emissões privadas, fora dessa regulamentação, chegaram a R$ 1,18 bilhão com 262 projetos lançados em seis meses.

Fontes

  1. Tokenização rendeu 18,6% ao ano, em média, no Brasil, diz RWA Monitor (14 de setembro de 2026)
  2. Mercado de tokenização cresce 122% no Brasil (14 de setembro de 2026)
  3. CVM participa de debates sobre caminhos da tokenização de ativos mobiliários no país (14 de setembro de 2026)
  4. Tokenização ganha escala no Brasil (1 de setembro de 2026)
  5. Histórico das taxas de juros fixadas pelo Copom (3 de setembro de 2026)

Este artigo é análise e opinião do autor, publicado com fins informativos. Não constitui recomendação de compra ou venda de qualquer ativo, nem promessa ou projeção de rentabilidade. Toda decisão de investimento é de responsabilidade de quem a toma. Rentabilidade passada não assegura rentabilidade futura.