Tokenização de ativos é o registro, numa blockchain, de um direito sobre um ativo que existe fora dela, dividido em frações vendidas separadamente. No Brasil, esse direito é quase sempre uma dívida: debêntures, CCB, CPR e notas comerciais somam 79% do que se tokeniza. Os 18,62% ao ano de retorno médio, medidos em setembro de 2026, são a Selic mais 4,87 pontos pagos pelo risco de quem deve.
Tokenizar um ativo leva três passos. Uma empresa emite um título de dívida, como uma debênture, pelo qual promete devolver o dinheiro com juro numa data. Uma tokenizadora, a plataforma que faz a emissão digital, divide esse título em frações. Cada fração vira um token numa blockchain, a rede que guarda o histórico de quem tem o quê.
O mesmo desenho serve para qualquer direito, e o exemplo que costuma ilustrá-lo é a fração de um apartamento ou de um quadro. No Brasil, o que se tokeniza é outra coisa. O RWA Monitor acompanha as emissões de 12 tokenizadoras (RWA é a sigla em inglês para ativos do mundo real). No levantamento divulgado em abril de 2026, com 5.334 projetos e R$ 8,8 bilhões captados, ele separou o conteúdo dos tokens por tipo de ativo:
Debêntures, CCB, CPR e notas comerciais somam 79% do que se tokeniza no Brasil
Debênture e nota comercial são empréstimos que uma empresa toma direto de quem compra o título. A CCB é a dívida de quem tomou crédito numa instituição financeira. A CPR é a promessa de um produtor de entregar a safra ou pagar o valor dela. Quem compra um token no Brasil, portanto, quase sempre está emprestando dinheiro a alguém. Os outros 21% ficam fora dessas quatro categorias, e o apartamento fracionado, quando aparece, está nessa sobra.
Na tokenização, o token e o título fazem trabalhos separados. O registro na blockchain diz quem detém cada fração, e o contrato do título diz quanto e quando ela recebe. A tecnologia mexe só no primeiro: em quem guarda o registro, no tamanho mínimo da fração e no canal pelo qual o título chega a quem compra.
Essas mudanças tiveram efeito medido. Pelos números do RWA Monitor publicados pelo CoinTelegraph em 28 de julho, as emissões tokenizadas somaram R$ 4,84 bilhões no 1º semestre de 2026. No mesmo período de 2025, tinham sido R$ 2,17 bilhões, uma alta de 122%. O que cresceu nesse ritmo foi um canal de distribuição de crédito.
O token funciona como o código de rastreio de uma encomenda. Ele diz, a qualquer hora e para qualquer um, onde está a encomenda e em nome de quem, e nada diz sobre o que vai dentro. Numa CPR, o pagamento depende da safra e do produtor; numa debênture, do caixa da empresa no vencimento. Se o devedor não pagar, o rastreio segue funcionando perfeitamente e mostra, fração a fração, quem ficou sem receber.
A stablecoin segue o mesmo desenho: um recibo de dólar registrado em blockchain, que vale o que vale a reserva de quem o emitiu. No crédito tokenizado, quem emite é o próprio devedor; na stablecoin de Visa, Mastercard e Coinbase, o juro da reserva vai às empresas parceiras. A comparação entre emissores de stablecoin mostra a regra que vale aqui também: tokens iguais por fora carregam riscos diferentes conforme a empresa por trás.
Em 14 de setembro de 2026, o RWA Monitor mediu um retorno médio de 18,62% ao ano em 5.182 projetos tokenizados, que captaram R$ 10,88 bilhões. Como quase tudo ali é dívida, esse retorno é o juro que os devedores aceitaram pagar. E juro de dívida privada se compara com a taxa que o governo paga, a Selic.
Dois dias depois do levantamento, em 16 de setembro, o Copom cortou a Selic de 14% para 13,75% ao ano, por unanimidade. O histórico da Selic mostra essa decisão ao lado das anteriores. Uma versão anterior deste texto datava o corte em 3 de setembro. Com a taxa que vale desde a reunião, o retorno médio se separa em duas parcelas:
Dos 18,62% ao ano do token médio, 13,75 pontos são a Selic e 4,87 são o preço do risco do devedor
A primeira parcela existe sem token nenhum: o Tesouro Selic paga essa taxa, com o Tesouro Nacional como devedor. O token acrescenta a segunda, o preço que o devedor paga a quem aceita o risco de não receber. Na data do levantamento, com a Selic ainda em 14%, a diferença era de 4,62 pontos. Os 4,87 comparam a mesma média com a taxa depois do corte.
A comparação é aproximada. A Selic é a taxa de um dia, revista a cada reunião do Copom, e o título dentro do token tem prazo e taxa próprios. Como régua da taxa que o devedor público paga, porém, ela dá a ordem de grandeza: cerca de um quarto do retorno médio remunera o risco de crédito.
A média esconde uma distribuição concentrada. No levantamento de setembro, 43% dos projetos pagam entre 15% e 18% ao ano, 25% entre 18% e 21% e 19% entre 21% e 24%. Somadas, as três faixas reúnem 87% dos projetos. A mais povoada começa em 15%, o ponto mais alto da Selic no ciclo, segundo a Exame: quase metade dos projetos paga entre o pico da taxa básica e três pontos acima dele.
Separado por setor, o retorno se espalha mais. Contra a mesma Selic, esta é a distância dos quatro setores de maior retorno médio:
Seguros pagam 13,05 pontos acima da Selic, e o setor financeiro, 5,05
O registro em blockchain funciona igual nos quatro setores. O que muda é quanto cada devedor precisa oferecer para achar quem lhe empreste. Um setor que paga 26,8% ao ano em média reúne emissores que não conseguiram captar mais barato. Tecnologia e logística, com 18,3% cada, ficam logo abaixo do setor financeiro, a 4,55 pontos da Selic.
O levantamento de julho também separa as emissões do 1º semestre pelo regime da oferta. A CVM 160 é a norma que rege as ofertas públicas de valores mobiliários. Sob ela, foram R$ 3,10 bilhões em 26 projetos, contra 6 um ano antes. Nas emissões privadas, fora dessa norma, foram R$ 1,18 bilhão em 262 projetos, contra 40.
Dividido pelo número de projetos, o volume mostra dois mercados. Dentro da CVM 160, cada projeto captou em média R$ 119 milhões; fora dela, R$ 4,5 milhões. Os projetos privados são dez vezes os de oferta pública, e o número deles cresceu 555% em um ano. A expansão em quantidade aconteceu nas emissões pequenas, fora da regra das ofertas públicas.
A diferença entre os dois regimes está no que o comprador fica sabendo. A oferta pública segue as regras da CVM para esse tipo de emissão. Na privada, a informação sobre quem deve depende mais do que a própria plataforma decide publicar.
Em 8 de outubro, no Encontro com o Mercado, a CVM apresentou a minuta de uma norma experimental e um programa piloto para DLT, depois publicado como Resolução 249, com testes de até 90 dias e sem investidor real. A sigla, em inglês, quer dizer registro distribuído, a família de tecnologias de que a blockchain faz parte. A norma passa a valer 15 dias úteis depois de publicada. O teste inicial dura 60 dias, prorrogáveis por mais 30, e a admissão é automática para quem cumprir os requisitos. Os resultados vão orientar a regulação a partir de 2027.
O piloto trata do registro, a parte que a tecnologia muda. O devedor dentro do token, e o risco de ele não pagar, ficam onde estavam.
Para quem tem ou avalia um token, três anotações vêm antes da taxa, nesta ordem:
- O nome do devedor e o título que ele emitiu, porque é dele a parcela que paga, em média, 4,87 dos 18,62 pontos.
- O regime da emissão: oferta pública sob a CVM 160 ou emissão privada, fora dela.
- Quem guarda o registro do token e o que acontece com ele se a plataforma parar, a mesma pergunta de onde guardar criptomoedas.
Fontes
- Tokenização rendeu 18,6% ao ano, em média, no Brasil, diz RWA Monitor (Exame) (14 de setembro de 2026)
- Tokenização ultrapassa R$ 10 bilhões em emissões no Brasil (InvestNews, dados do RWA Monitor) (23 de abril de 2026)
- Mercado de tokenização cresce 122% no Brasil (CoinTelegraph Brasil, dados do RWA Monitor) (28 de julho de 2026)
- Copom reduz Selic para 13,75% ao ano em decisão unânime (Atlas Público, comunicado do Banco Central) (16 de setembro de 2026)
- CVM cria programa piloto para testar tokenização no mercado de capitais (Finsiders Brasil) (8 de outubro de 2026)
Este artigo é análise da Vesuvian, publicada com fins informativos. Não constitui recomendação de compra ou venda de qualquer ativo, nem promessa ou projeção de rentabilidade. Toda decisão de investimento é de responsabilidade de quem a toma. Rentabilidade passada não assegura rentabilidade futura. Produzido pela Equipe Vesuvian com uso de inteligência artificial e revisão editorial. Veja a política editorial.
