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Tokenização de ativos: o que é e quem paga os 18,6% ao ano

Equipe Vesuvian8 min de leitura

Tokenização de ativos é o registro, numa blockchain, de um direito sobre um ativo que existe fora dela, dividido em frações vendidas separadamente. No Brasil, esse direito é quase sempre uma dívida: debêntures, CCB, CPR e notas comerciais somam 79% do que se tokeniza. Os 18,62% ao ano de retorno médio, medidos em setembro de 2026, são a Selic mais 4,87 pontos pagos pelo risco de quem deve.

O que é tokenização de ativos, e o que vai dentro do token no Brasil

Tokenizar um ativo leva três passos. Uma empresa emite um título de dívida, como uma debênture, pelo qual promete devolver o dinheiro com juro numa data. Uma tokenizadora, a plataforma que faz a emissão digital, divide esse título em frações. Cada fração vira um token numa blockchain, a rede que guarda o histórico de quem tem o quê.

O mesmo desenho serve para qualquer direito, e o exemplo que costuma ilustrá-lo é a fração de um apartamento ou de um quadro. No Brasil, o que se tokeniza é outra coisa. O RWA Monitor acompanha as emissões de 12 tokenizadoras (RWA é a sigla em inglês para ativos do mundo real). No levantamento divulgado em abril de 2026, com 5.334 projetos e R$ 8,8 bilhões captados, ele separou o conteúdo dos tokens por tipo de ativo:

Debêntures, CCB, CPR e notas comerciais somam 79% do que se tokeniza no Brasil

Debênturesdívida de empresaCCBcédula de créditobancárioCPRcédula de produtoruralNotas comerciaisdívida de empresaTítulos de dívidana composição
38%
15%
13%
13%
79%
Composição por tipo de ativo tokenizado no levantamento de abril de 2026. Os quatro tipos com fatia informada são títulos de dívida; os outros 21% não vêm separados. Fonte: RWA Monitor, via InvestNews, 23/4/2026.

Debênture e nota comercial são empréstimos que uma empresa toma direto de quem compra o título. A CCB é a dívida de quem tomou crédito numa instituição financeira. A CPR é a promessa de um produtor de entregar a safra ou pagar o valor dela. Quem compra um token no Brasil, portanto, quase sempre está emprestando dinheiro a alguém. Os outros 21% ficam fora dessas quatro categorias, e o apartamento fracionado, quando aparece, está nessa sobra.

O que a blockchain muda na tokenização, e o que ela mantém

Na tokenização, o token e o título fazem trabalhos separados. O registro na blockchain diz quem detém cada fração, e o contrato do título diz quanto e quando ela recebe. A tecnologia mexe só no primeiro: em quem guarda o registro, no tamanho mínimo da fração e no canal pelo qual o título chega a quem compra.

Essas mudanças tiveram efeito medido. Pelos números do RWA Monitor publicados pelo CoinTelegraph em 28 de julho, as emissões tokenizadas somaram R$ 4,84 bilhões no 1º semestre de 2026. No mesmo período de 2025, tinham sido R$ 2,17 bilhões, uma alta de 122%. O que cresceu nesse ritmo foi um canal de distribuição de crédito.

O token funciona como o código de rastreio de uma encomenda. Ele diz, a qualquer hora e para qualquer um, onde está a encomenda e em nome de quem, e nada diz sobre o que vai dentro. Numa CPR, o pagamento depende da safra e do produtor; numa debênture, do caixa da empresa no vencimento. Se o devedor não pagar, o rastreio segue funcionando perfeitamente e mostra, fração a fração, quem ficou sem receber.

A stablecoin segue o mesmo desenho: um recibo de dólar registrado em blockchain, que vale o que vale a reserva de quem o emitiu. No crédito tokenizado, quem emite é o próprio devedor; na stablecoin de Visa, Mastercard e Coinbase, o juro da reserva vai às empresas parceiras. A comparação entre emissores de stablecoin mostra a regra que vale aqui também: tokens iguais por fora carregam riscos diferentes conforme a empresa por trás.

Quem paga os 18,62% ao ano é o devedor, e 4,87 pontos são prêmio sobre a Selic

Em 14 de setembro de 2026, o RWA Monitor mediu um retorno médio de 18,62% ao ano em 5.182 projetos tokenizados, que captaram R$ 10,88 bilhões. Como quase tudo ali é dívida, esse retorno é o juro que os devedores aceitaram pagar. E juro de dívida privada se compara com a taxa que o governo paga, a Selic.

Dois dias depois do levantamento, em 16 de setembro, o Copom cortou a Selic de 14% para 13,75% ao ano, por unanimidade. O histórico da Selic mostra essa decisão ao lado das anteriores. Uma versão anterior deste texto datava o corte em 3 de setembro. Com a taxa que vale desde a reunião, o retorno médio se separa em duas parcelas:

Dos 18,62% ao ano do token médio, 13,75 pontos são a Selic e 4,87 são o preço do risco do devedor

Selica taxa que o Tesouro pagaPrêmio de risco do devedorretorno médio menos a SelicRetorno médio dos ativostokenizados
13,75%
4,87 pontos
18,62%
Selic depois da reunião do Copom de 16 de setembro de 2026, lida no comunicado do Banco Central reproduzido pelo Atlas Público. O prêmio é a diferença entre o retorno médio e a Selic. Fonte: RWA Monitor, via Exame, 14/9/2026.

A primeira parcela existe sem token nenhum: o Tesouro Selic paga essa taxa, com o Tesouro Nacional como devedor. O token acrescenta a segunda, o preço que o devedor paga a quem aceita o risco de não receber. Na data do levantamento, com a Selic ainda em 14%, a diferença era de 4,62 pontos. Os 4,87 comparam a mesma média com a taxa depois do corte.

A comparação é aproximada. A Selic é a taxa de um dia, revista a cada reunião do Copom, e o título dentro do token tem prazo e taxa próprios. Como régua da taxa que o devedor público paga, porém, ela dá a ordem de grandeza: cerca de um quarto do retorno médio remunera o risco de crédito.

Por setor, o retorno vai de 18,3% a 26,8% ao ano, com a mesma tecnologia

A média esconde uma distribuição concentrada. No levantamento de setembro, 43% dos projetos pagam entre 15% e 18% ao ano, 25% entre 18% e 21% e 19% entre 21% e 24%. Somadas, as três faixas reúnem 87% dos projetos. A mais povoada começa em 15%, o ponto mais alto da Selic no ciclo, segundo a Exame: quase metade dos projetos paga entre o pico da taxa básica e três pontos acima dele.

Separado por setor, o retorno se espalha mais. Contra a mesma Selic, esta é a distância dos quatro setores de maior retorno médio:

Seguros pagam 13,05 pontos acima da Selic, e o setor financeiro, 5,05

Seguros
Sustentabilidade
Eletromobilidade
Setor financeiro
Retorno médio do setor
26,8%
25,0%
20,0%
18,8%
Selic depois do corte
13,75%
13,75%
13,75%
13,75%
Prêmio sobre a Selic
13,05 pontos
11,25 pontos
6,25 pontos
5,05 pontos
Retorno médio por setor no levantamento de setembro, comparado com a Selic depois da reunião do Copom de 16 de setembro. Fonte: RWA Monitor, via Exame, 14/9/2026.

O registro em blockchain funciona igual nos quatro setores. O que muda é quanto cada devedor precisa oferecer para achar quem lhe empreste. Um setor que paga 26,8% ao ano em média reúne emissores que não conseguiram captar mais barato. Tecnologia e logística, com 18,3% cada, ficam logo abaixo do setor financeiro, a 4,55 pontos da Selic.

Fora da CVM 160 há dez vezes mais projetos, de R$ 4,5 milhões em média

O levantamento de julho também separa as emissões do 1º semestre pelo regime da oferta. A CVM 160 é a norma que rege as ofertas públicas de valores mobiliários. Sob ela, foram R$ 3,10 bilhões em 26 projetos, contra 6 um ano antes. Nas emissões privadas, fora dessa norma, foram R$ 1,18 bilhão em 262 projetos, contra 40.

Dividido pelo número de projetos, o volume mostra dois mercados. Dentro da CVM 160, cada projeto captou em média R$ 119 milhões; fora dela, R$ 4,5 milhões. Os projetos privados são dez vezes os de oferta pública, e o número deles cresceu 555% em um ano. A expansão em quantidade aconteceu nas emissões pequenas, fora da regra das ofertas públicas.

A diferença entre os dois regimes está no que o comprador fica sabendo. A oferta pública segue as regras da CVM para esse tipo de emissão. Na privada, a informação sobre quem deve depende mais do que a própria plataforma decide publicar.

A CVM regulamenta a tokenização? Há um piloto de 60 dias, e a regra vem a partir de 2027

Em 8 de outubro, no Encontro com o Mercado, a CVM apresentou a minuta de uma norma experimental e um programa piloto para DLT, depois publicado como Resolução 249, com testes de até 90 dias e sem investidor real. A sigla, em inglês, quer dizer registro distribuído, a família de tecnologias de que a blockchain faz parte. A norma passa a valer 15 dias úteis depois de publicada. O teste inicial dura 60 dias, prorrogáveis por mais 30, e a admissão é automática para quem cumprir os requisitos. Os resultados vão orientar a regulação a partir de 2027.

O piloto trata do registro, a parte que a tecnologia muda. O devedor dentro do token, e o risco de ele não pagar, ficam onde estavam.

Para quem tem ou avalia um token, três anotações vêm antes da taxa, nesta ordem:

  • O nome do devedor e o título que ele emitiu, porque é dele a parcela que paga, em média, 4,87 dos 18,62 pontos.
  • O regime da emissão: oferta pública sob a CVM 160 ou emissão privada, fora dela.
  • Quem guarda o registro do token e o que acontece com ele se a plataforma parar, a mesma pergunta de onde guardar criptomoedas.

Perguntas frequentes

RWA é a sigla em inglês de real world assets, ativos do mundo real. São títulos, recebíveis, imóveis ou mercadorias que existem fora da blockchain e ganham nela um registro em forma de token. O token dá direito ao ativo ou ao fluxo de pagamento dele, conforme o contrato. No Brasil, a sigla dá nome ao RWA Monitor, que acompanha as emissões das tokenizadoras e mede retorno, volume e tipo de ativo.
Usa a mesma tecnologia, mas o valor vem de outro lugar. O bitcoin não tem emissor nem contrato, e o preço sai só da compra e venda. O token de um ativo real tem um emissor. Ele representa um direito escrito num contrato, como receber o juro e o principal de uma debênture. Por isso a pergunta sobre ele é se o devedor paga, e não para onde vai a cotação.
A revenda é uma regra de cada plataforma e de cada título, e precisa estar escrita nos documentos da oferta. Quando ela existe, o preço depende de haver comprador naquele momento. Os levantamentos do RWA Monitor medem emissão, retorno e tipo de ativo, e não o volume negociado depois da emissão. Antes de comprar, convém ler se há saída antecipada, em que condição e com que custo.
O imóvel em si não entra na blockchain. O que se tokeniza é um direito ligado a ele: uma fração da renda do aluguel, um crédito que tem o imóvel como garantia ou uma participação na empresa dona dele. O token registra quem tem cada fração. O risco é o desse direito: quem administra o imóvel, quem paga o aluguel e o que cobre o crédito se o pagamento falhar.

Fontes

  1. Tokenização rendeu 18,6% ao ano, em média, no Brasil, diz RWA Monitor (Exame) (14 de setembro de 2026)
  2. Tokenização ultrapassa R$ 10 bilhões em emissões no Brasil (InvestNews, dados do RWA Monitor) (23 de abril de 2026)
  3. Mercado de tokenização cresce 122% no Brasil (CoinTelegraph Brasil, dados do RWA Monitor) (28 de julho de 2026)
  4. Copom reduz Selic para 13,75% ao ano em decisão unânime (Atlas Público, comunicado do Banco Central) (16 de setembro de 2026)
  5. CVM cria programa piloto para testar tokenização no mercado de capitais (Finsiders Brasil) (8 de outubro de 2026)

Este artigo é análise da Vesuvian, publicada com fins informativos. Não constitui recomendação de compra ou venda de qualquer ativo, nem promessa ou projeção de rentabilidade. Toda decisão de investimento é de responsabilidade de quem a toma. Rentabilidade passada não assegura rentabilidade futura. Produzido pela Equipe Vesuvian com uso de inteligência artificial e revisão editorial. Veja a política editorial.