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Stablecoin emissor: quem emite muda o risco que você carrega

TATomás Argolo8 min de leituraCriptomoedas
Notas de dólar americano espalhadas sobre uma mesa

O risco de uma stablecoin depende do emissor. USDT e USDC concentram 87% de um mercado de US$ 300 bilhões, mas quem lastreia cada uma e onde guarda a reserva são perguntas com respostas diferentes. Em março de 2023, o USDC caiu a US$ 0,88 apesar da transparência da Circle. O consórcio de 21 bancos que anunciou um token em setembro de 2026 não respondeu a nenhuma delas.

US$ 247 bilhões em duas stablecoins, e o risco de cada uma é diferente

USDT e USDC somam US$ 247,7 bilhões de capitalização em setembro de 2026, com o USDT cerca de duas vezes maior que o USDC. Juntas, respondem por 87% de um mercado que atingiu aproximadamente US$ 300 bilhões em agosto de 2026. Duas empresas emitem os tokens que servem de dólar digital para o ecossistema de criptoativos: a Tether e a Circle.

Uma stablecoin lastreada funciona assim: o emissor recebe dólares, deposita numa reserva e emite tokens na proporção de um para um. Quando quem carrega o token quer o dólar de volta, entrega o token e o emissor paga o resgate. A mecânica é simples. O risco está em quem guarda a reserva, no que há dentro dela e no que acontece se o emissor não conseguir devolver.

No Brasil, stablecoins representam aproximadamente 80% do volume de criptoativos declarado à Receita Federal, segundo Robinson Barreirinhas, secretário especial da Receita. O holder brasileiro que mantém USDT ou USDC como forma de guardar dólares carrega, quer saiba quer não, o risco de contraparte do emissor. E cada emissor carrega um risco diferente.

A Circle era transparente e o USDC perdeu a paridade em março de 2023

A Circle, dos dois grandes emissores, é a que mais divulga sobre a composição da reserva do USDC. O mercado a tratava como referência de clareza entre stablecoins, pelo menos até março de 2023.

Naquele mês, o USDC perdeu a paridade com o dólar e chegou a US$ 0,88. A causa não era falha da Circle: o banco americano onde parte da reserva do USDC estava depositada havia quebrado. A notícia de que o lastro estava preso num banco em colapso bastou para o mercado precificar a possibilidade de que os resgates não seriam honrados no prazo.

O episódio ensina uma coisa sobre stablecoins que a palavra transparência não alcança. O emissor pode divulgar tudo sobre a reserva, e o risco pode estar fora dele. A atestação funciona como um relatório de backup: confirma que os dados existem, mas não testa o que acontece quando se precisa restaurá-los sob pressão. Em março de 2023, o teste aconteceu, e parte do lastro estava trancada dentro de um banco que havia parado de operar.

A Tether passou na auditoria da KPMG, e a S&P discorda

A Tether publicou em 2025 uma auditoria completa das demonstrações financeiras conduzida pela KPMG, que emitiu opinião sem ressalvas. No vocabulário contábil, opinião sem ressalvas é o resultado mais limpo: significa que, na avaliação do auditor, os números apresentados refletem a posição patrimonial da empresa.

A S&P Global Ratings avalia a mesma stablecoin de modo diferente: classifica a capacidade do USDT de manter a paridade com o dólar como "baixa", citando menor transparência e maior exposição a ativos de risco. Em 2021, a Tether pagou US$ 18,5 milhões em acordo por declarações enganosas sobre a composição das reservas.

Opinião sem ressalvas de um auditor e avaliação "baixa" de uma agência de classificação sobre o mesmo token não são contradição: são medições diferentes. A auditoria verifica se os números nas demonstrações financeiras estão corretos. A avaliação de risco pergunta se a estrutura por trás dos números aguenta um estresse de mercado. O holder que lê o relatório da KPMG e conclui que o USDT é seguro está vendo metade do quadro, tanto quanto o que lê a nota da S&P e conclui que é inseguro.

O consórcio de 21 bancos entrou no mercado sem responder a pergunta que importa

Em 2 de setembro de 2026, 21 bancos anunciaram o compromisso de lançar uma stablecoin em dólar no primeiro semestre de 2027. A lista inclui Bank of America, Citi, Goldman Sachs, Wells Fargo, Santander, Deutsche Bank e MUFG. Em outubro de 2025, o consórcio tinha dez bancos. Menos de um ano depois, são 21.

A lista de nomes cresceu. A lista de informações, não. O comunicado de 2 de setembro não divulgou em qual blockchain o token vai rodar, como a reserva será composta, quem fará a custódia nem quais serão os parceiros de distribuição. São as quatro perguntas que o holder precisa responder antes de carregar qualquer stablecoin, e nenhuma teve resposta.

Na minha leitura, a omissão é mais reveladora que o anúncio. Um consórcio que entra num mercado de US$ 300 bilhões sem dizer onde guardará o lastro está pedindo que o mercado confie no nome dos bancos, não na estrutura do produto. É o oposto do que a experiência do USDC ensinou: o nome não impediu a quebra de paridade; a estrutura da reserva, e onde ela estava guardada, é que determinou o desfecho.

O Genius Act proibiu o rendimento e mudou a competição entre emissores

O Genius Act, promulgado nos Estados Unidos em 2026, proíbe emissores de stablecoins de pagamento reguladas de pagar rendimento ou juros ao holder exclusivamente por manter o token. A stablecoin regulada não pode funcionar como conta remunerada: o holder resgata um dólar por token, e o rendimento que a reserva gera fica com o emissor.

A proibição retira da competição o único diferencial que não exigia confiança no emissor. Quando stablecoins podiam oferecer rendimento, o holder tinha um critério objetivo de escolha: quem paga mais. Com o rendimento proibido, a decisão entre stablecoins reguladas passa a depender inteiramente da qualidade da reserva e da solidez do emissor.

Rendimento em stablecoin vem de algum lugar: a reserva aplica os dólares do lastro e gera juros, e com a lei esses juros ficam com o emissor. O que resta ao holder é avaliar a contraparte, sem rendimento para distrair. E é sobre esse critério que o consórcio de 21 bancos ainda não apresentou uma linha.

Para quem tem stablecoin no Brasil, o emissor é o risco que você carrega

O volume de stablecoins no Brasil está mapeado, e é expressivo. A DeCripto, regulamentação da Instrução Normativa RFB 2.291 de novembro de 2025, entrou em vigor para operações a partir de julho de 2026. A troca automática de dados com fiscos do exterior começa em 2027. A pergunta é se o holder sabe o risco que carrega dentro desse volume.

USDT, USDC e o token que o consórcio bancário planeja para 2027 prometem a mesma coisa: um dólar por token. A solidez dessa promessa depende de onde está a reserva, quem a custodia e o que acontece se o emissor não puder honrar o resgate. A Circle respondeu a essas perguntas e mesmo assim o USDC foi a US$ 0,88. A Tether passou na auditoria e a S&P discorda. O consórcio não respondeu a nenhuma.

Para o holder brasileiro, stablecoin é exposição ao dólar e ao emissor ao mesmo tempo. A regulamentação e o cruzamento internacional de dados acrescentam visibilidade. O risco de contraparte do emissor é o que nenhuma dessas camadas substitui. Quem consolida a posição em stablecoin distribuída entre corretoras num lugar só sabe o tamanho da exposição. O passo seguinte é saber quem está do outro lado.

Perguntas frequentes

O que é uma stablecoin?

Uma stablecoin é um token projetado para manter paridade com uma moeda, na maioria dos casos o dólar americano. As duas maiores, USDT e USDC, funcionam por lastro: o emissor recebe dólares, deposita numa reserva e emite tokens na proporção de um para um. O risco de que a paridade quebre depende da qualidade da reserva e da solidez do emissor.

Qual a diferença entre USDT e USDC?

USDT é emitido pela Tether e USDC pela Circle. Em setembro de 2026, o USDT tem capitalização cerca do dobro do USDC, e juntos somam US$ 247,7 bilhões. A Tether recebeu opinião sem ressalvas da KPMG nas demonstrações de 2025, mas a S&P avalia a capacidade de manter o peg como baixa. O USDC já perdeu paridade em março de 2023 quando a reserva estava parcialmente depositada em banco falido.

Stablecoin tem risco?

Toda stablecoin lastreada carrega risco de contraparte: a possibilidade de que o emissor não consiga devolver o dólar prometido. O risco depende de onde está a reserva, como é custodiada e quem a administra. Em março de 2023, o USDC chegou a US$ 0,88 por causa da quebra do banco onde parte da reserva estava depositada. Transparência reduz o risco, mas não o elimina.

Quais bancos vão lançar stablecoin?

Em 2 de setembro de 2026, 21 bancos anunciaram compromisso de lançar uma stablecoin em dólar no primeiro semestre de 2027. Entre eles estão Bank of America, Citi, Goldman Sachs, Wells Fargo, Santander, Deutsche Bank e MUFG. O consórcio cresceu de 10 bancos em outubro de 2025 para 21. O comunicado não informou blockchain, composição da reserva, custódia nem parceiros de distribuição.

O que o Genius Act muda para stablecoins?

O Genius Act, promulgado nos Estados Unidos em 2026, proíbe emissores de stablecoins de pagamento reguladas de pagar rendimento ou juros ao holder apenas por manter o token. A proibição retira o rendimento como diferencial entre emissores e desloca a competição para a qualidade da reserva e a solidez do emissor. O holder escolhe pela confiança na contraparte, não pela remuneração.

Fontes

  1. 21 banks including Citi, Goldman Sachs, Bank of America commit to joint stablecoin venture (2 de setembro de 2026)
  2. USDT e USDC: qual stablecoin escolher para ter dólar em cripto (8 de setembro de 2026)
  3. Receita Federal vai cruzar dados de criptoativos com outros países em 2027 (2 de setembro de 2026)
  4. Bank of America, Citi join 21-firm stablecoin plan (2 de setembro de 2026)

Este artigo é análise e opinião do autor, publicado com fins informativos. Não constitui recomendação de compra ou venda de qualquer ativo, nem promessa ou projeção de rentabilidade. Toda decisão de investimento é de responsabilidade de quem a toma. Rentabilidade passada não assegura rentabilidade futura.