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Notas de dólar americano espalhadas sobre uma mesa

Emissor de stablecoin: quem deve o dólar e quanto sobra

Equipe Vesuvian9 min de leitura

O emissor de uma stablecoin é a empresa que cria o token, paga o resgate e guarda a reserva. O que separa um emissor de outro é quanto a reserva pode perder antes de o token valer menos que US$ 1. Em agosto de 2026, a folga da Tether era de 2,2% do que ela devia. Em 2023, 8% da reserva presos num banco levaram o USDC a US$ 0,88.

Stablecoin é um crédito contra o emissor, e dois emissores devem 82% do mercado

O emissor cria a stablecoin quando recebe dólares e a apaga quando paga o resgate. Entre as duas pontas, ele guarda a reserva que sustenta a promessa de US$ 1 por token. Quem segura o token tem, portanto, um crédito contra o emissor. Esse é o risco de contraparte da stablecoin: o de o devedor não pagar inteiro. O guia do que é stablecoin mostra como a emissão e o resgate seguram o preço perto de um dólar.

Esse crédito está concentrado em dois devedores. Em agosto de 2026, havia cerca de US$ 308 bilhões em stablecoins em circulação, pelo rastreador da Spark. Ele compila dados da DefiLlama, da CoinGecko e dos relatórios dos próprios emissores. A Tether devia cerca de US$ 184 bilhões em USDT, 59,1% do total, e a Circle, cerca de US$ 74 bilhões em USDC, 23,0%.

Somadas, as duas dívidas dão cerca de US$ 258 bilhões, ou 82,1% do mercado. Para quem guarda dólar em stablecoin, avaliar o emissor quase sempre significa avaliar a Tether ou a Circle. As duas dizem ter um dólar de reserva para cada token. O que as separa é o que essa reserva compra, em que banco ela fica e quanto sobra depois de pagar todos os tokens.

A reserva-padrão é caixa e título curto, e um quarto da Tether está fora do Tesouro americano

A Stripe descreve o modelo-padrão de reserva de um emissor numa página de 11 de março de 2026. Nele, a reserva fica em caixa, depósitos bancários segurados e títulos públicos de curto prazo. O dinheiro fica em contas separadas do patrimônio do emissor, com verificação independente todo mês. São ativos de preço estável e venda rápida, o que permite pagar muitos resgates no mesmo dia.

Essa reserva também é a receita do emissor: os títulos rendem juro, e o juro fica com ele, não com quem segura o token. O caso da OUSD mostra como esse juro se divide quando há parceiros na distribuição.

Posta nesse modelo, a Tether cumpre a maior parte. Pelo mesmo rastreador da Spark, ela tinha em agosto US$ 187,75 bilhões em ativos. Cerca de US$ 141 bilhões estavam em exposição a títulos do Tesouro americano, 75,1% do total (141 ÷ 187,75). Os outros 24,9%, perto de US$ 47 bilhões, estão em ativos de outro tipo.

Foi esse tipo de ativo que levou a S&P Global a rebaixar o USDT em 26 de novembro de 2025. A agência baixou a nota de estabilidade do token de 4 (constrained) para 5 (weak), a pior de uma escala de 1 a 5. Ela apontou mais ativos de risco na reserva, como bitcoin, ouro, empréstimos com colateral e títulos corporativos. Apontou também lacunas na divulgação de custodiantes, contrapartes e bancos. A Tether discordou e chamou a metodologia de legado, segundo a Reuters.

A reserva da Tether aguenta perder 2,2% antes de faltar dólar para o USDT

O colchão é o que sobra dos ativos depois de pagar todos os tokens em circulação. Enquanto a reserva perde menos que o colchão, cada USDT continua coberto por um dólar. Quando perde mais, passa a existir token sem dólar correspondente. Com os números de agosto, a conta fica assim:

O colchão da Tether é de US$ 4,1 bilhões, 2,2% do que ela deve em USDT

Colchão: ativos menos passivos, em US$ bilhões
4,11
Colchão sobre o que a Tether deve
2,24%
Ativos e passivos da Tether em agosto de 2026, em bilhões de dólares. Os passivos são, na prática, os tokens em circulação que a Tether promete resgatar; o colchão é a diferença entre o que ela tem e o que ela deve. Fonte: Spark, rastreador de capitalização de stablecoins, 15/8/2026.

Em bilhões, o colchão parece grande. Contra o quarto da reserva que fica fora do Tesouro, ele é estreito: bastaria esses US$ 47 bilhões perderem perto de 9% do valor (4,11 ÷ 47) para consumi-lo inteiro. O colchão funciona como o espaço livre de um disco: ninguém olha para ele até o dia em que um arquivo não cabe.

A nota da S&P, em novembro de 2025, seguiu o mesmo raciocínio. Segundo o The Defiant, que noticiou a nota, os ativos de alto risco tinham chegado a 24% da reserva, contra 17% um ano antes. Só o bitcoin, perto de 5,6% da reserva, já passava do colchão da época, de 3,9%. Uma queda forte apenas no bitcoin deixaria parte dos tokens descoberta.

Os números de 2025 e os de 2026 vêm de fontes e métodos diferentes, e não formam uma série. Os 24% são a classificação de risco da agência. Os 24,9% são tudo o que não está em título do governo americano, arriscado ou não. Em cada ano, a parte que preocupa é várias vezes o colchão: seis vezes em 2025 (24 ÷ 3,9) e onze em 2026 (24,9 ÷ 2,24).

Em 2023, o ponto de falha do USDC foi o banco que guardava a reserva

O outro modo de falha não depende do que o emissor compra, e sim de onde ele guarda. Em março de 2023, a Circle informou que US$ 3,3 bilhões da reserva do USDC estavam no Silicon Valley Bank, que acabara de quebrar. Era cerca de 8% da reserva. O USDC chegou a US$ 0,88. Voltou a US$ 1 em cerca de três dias, depois que o governo americano protegeu os depositantes do banco.

8% da reserva presos num banco tiraram US$ 0,12 do preço do USDC

A Circle revela US$ 3,3 bilhões da reserva presos no Silicon Valley Bank

R$ 0R$ 0R$ 1R$ 1R$ 1paridade, antes da quebra do bancoUS$ 1mínimo, em março de 2023US$ 0,88
− R$ 0,12(12,00%)
Preço do USDC em dólares, na paridade e no ponto mais baixo da crise do Silicon Valley Bank. Fonte: Axios, 11/3/2023.

O episódio mostra duas coisas. A primeira é que a reserva era do tipo que o modelo-padrão descreve, depósito e título, e mesmo assim uma parte ficou presa. A segunda é que o preço caiu mais que o buraco: 12% contra 8%. Quem tinha o token não sabia se perderia uma fração, nada ou mais, e vendeu antes de saber. Como o token negocia a qualquer hora, a dúvida chegou ao preço antes da resposta.

Como escala, e não como previsão: um buraco de 8% da reserva equivale a 3,6 vezes o colchão da Tether em agosto de 2026 (8 ÷ 2,2). Na reserva dela, um episódio desse tamanho passaria do colchão e deixaria tokens descobertos.

O consórcio de 21 bancos prometeu reserva 1:1 e ainda não disse quem vai guardá-la

Em 1º de setembro de 2026, 21 instituições financeiras anunciaram uma stablecoin em dólar para o primeiro semestre de 2027, segundo a CoinTelegraph Brasil. Entre elas estão Bank of America, Goldman Sachs, Citi, Deutsche Bank, UBS, Santander, MUFG e Fidelity Investments. O grupo começou com dez bancos em outubro de 2025. O plano promete reserva de um dólar por token e conformidade com o Genius Act, a lei americana de stablecoins, e com o MiCA, o regulamento europeu de criptoativos.

O anúncio não definiu a blockchain do token nem o custodiante da reserva. Reserva 1:1 diz quantos dólares haverá, e não o que eles compram nem em que banco ficam. São justamente as duas partes que já deram problema nos outros emissores. A Tether foi rebaixada pela composição e pela divulgação; o USDC perdeu a paridade por causa de um banco.

Por ora, a lista de bancos faz no anúncio o papel que caberia ao relatório de reserva. Até o consórcio nomear o custodiante, não há como fazer com o token dele as contas que este texto fez com a Tether e a Circle.

O que conferir no emissor de uma stablecoin: o colchão, a composição e o banco

As três perguntas valem para qualquer emissor, inclusive os que ainda vão surgir. A resposta está no relatório de reserva que o emissor publica, ou na falta dele:

  • O colchão: ativos menos passivos, dividido pelos passivos, que diz quanto a reserva pode perder antes de faltar dólar.
  • A composição: a parte dos ativos fora de caixa, depósito e título público curto, que é onde a perda costuma começar.
  • A custódia: o nome do banco ou do custodiante que guarda a reserva, que é onde ela pode ficar presa.
O que se sabeTether (USDT)Circle (USDC)Consórcio de 21 instituições
Em circulação, agosto de 2026cerca de US$ 184 bilhõescerca de US$ 74 bilhõesnada; lançamento previsto para o 1º semestre de 2027
Estresse já registradonota 5 (weak) da S&P, em novembro de 2025US$ 0,88, em março de 2023nenhum: o token ainda não existe
Quem guarda a reservacustodiantes e bancos com divulgação incompleta, segundo a S&Pem 2023, 8% estavam no Silicon Valley Banknão informado

Há ainda uma segunda camada, a da corretora. Quem compra USDT numa corretora e deixa o token lá tem um crédito contra a corretora. Ela, por sua vez, guarda um crédito contra a Tether, e nenhum dos dois créditos tem cobertura do FGC. O guia de onde guardar criptomoedas compara essa posição com a carteira própria, em que o único devedor no caminho é o emissor.

Para quem guarda dólar em stablecoin, a tarefa é refazer a conta do colchão a cada relatório de reserva do emissor e saber em que corretora ou carteira está cada token. Em agosto de 2026, na Tether, essa conta dava pouco mais de dois dólares de folga para cada cem em tokens.

Perguntas frequentes

Depeg é quando a stablecoin passa a ser negociada abaixo da moeda que acompanha: um token que promete US$ 1 vendido por menos que isso. Acontece quando quem tem o token duvida de que o resgate será pago inteiro. Se a reserva estiver intacta, quem pode resgatar no emissor compra o token barato e o troca por um dólar. Essa compra puxa o preço de volta; se faltar dinheiro na reserva, o desconto fica.
Os dois carregam riscos de natureza diferente, e nenhuma resposta única resolve a comparação. O risco apontado no USDT é de composição: a S&P o pôs na nota 5 por causa de ativos como bitcoin e ouro na reserva. O do USDC já se materializou na custódia, quando parte da reserva ficou presa num banco em 2023. A comparação útil olha o colchão, a composição e o banco de cada um no relatório de reserva mais recente.
Com o juro da reserva. Os dólares recebidos na emissão ficam aplicados, em boa parte em títulos públicos de curto prazo. O rendimento desses títulos é do emissor, não de quem segura o token. Por isso, uma plataforma que paga rendimento sobre stablecoin tira esse dinheiro de outra operação. O risco do rendimento está nessa operação, e não na reserva do emissor.
Não. O FGC cobre depósitos e alguns títulos de instituições financeiras brasileiras, e a stablecoin não é nenhum dos dois. Ela é uma dívida de um emissor, em geral estrangeiro, com quem segura o token. O saldo numa corretora de cripto também fica fora, porque é um crédito contra a corretora. Se o emissor ou a corretora quebram, o que se recupera depende do que sobrar no patrimônio de quem quebrou.

Fontes

  1. Spark: rastreador da capitalização de mercado de stablecoins (mercado, USDT, USDC e ativos e passivos da Tether) (15 de agosto de 2026)
  2. Stripe: emissão de stablecoin, uma estrutura prática para avaliar estabilidade, escalabilidade e risco (11 de março de 2026)
  3. Kitco (Reuters): S&P corta a nota de estabilidade do USDT para 'weak' por lacunas de divulgação (26 de novembro de 2025)
  4. The Defiant: S&P rebaixa o USDT citando reservas de risco (26 de novembro de 2025)
  5. Axios: USDC perde a paridade com a exposição da Circle ao Silicon Valley Bank (11 de março de 2023)
  6. CoinTelegraph Brasil: 21 instituições financeiras do G7 preparam stablecoin conjunta (1 de setembro de 2026)

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