Treze ações pagaram dividendos acima da Selic de 13,75% ao ano nos 12 meses até 21 de setembro de 2026, segundo a Elos Ayta. Só seis pagaram com caixa recorrente, VULC3, LAVV3, CURY3, BMGB4, BBSE3 e BRAP4, com folga de 0,05 a 2,41 pontos sobre a Selic. O maior yield da lista, os 33,59% da Riachuelo, saiu da venda de um shopping.
A lista é da Elos Ayta Consultoria e saiu no Bora Investir, da B3, em 24 de setembro. Ela mede o dividend yield, o provento pago em 12 meses dividido pelo preço da ação, e guarda as ações que passaram da Selic. A régua é a taxa decidida em 16 de setembro, quando o Copom cortou a Selic de 14% para 13,75% ao ano, por unanimidade. O histórico da Selic mostra essa decisão ao lado das anteriores.
A lista também diz de onde veio cada provento, e essa coluna muda a leitura. Cinco ações aparecem como extraordinárias, duas como mistas e seis como recorrentes. A tabela reproduz a classificação e acrescenta a folga de cada ação sobre a Selic, em pontos percentuais.
| Ação | Dividend yield em 12 meses | Origem do provento, segundo a lista | Folga sobre a Selic |
|---|---|---|---|
| RIAA3 | 33,59% | Extraordinária | 19,84 pontos |
| LOGG3 | 30,37% | Extraordinária | 16,62 pontos |
| JSLG3 | 29,87% | Extraordinária | 16,12 pontos |
| GRND3 | 28,95% | Extraordinária | 15,20 pontos |
| AUAU3 | 18,58% | Extraordinária | 4,83 pontos |
| ALPA4 | 18,39% | Mista | 4,64 pontos |
| MDNE3 | 16,86% | Mista | 3,11 pontos |
| VULC3 | 16,16% | Recorrente | 2,41 pontos |
| LAVV3 | 15,94% | Recorrente | 2,19 pontos |
| CURY3 | 14,97% | Recorrente | 1,22 ponto |
| BMGB4 | 13,92% | Recorrente | 0,17 ponto |
| BBSE3 | 13,90% | Recorrente | 0,15 ponto |
| BRAP4 | 13,80% | Recorrente | 0,05 ponto |
A lista acerta no que mede: quem pôs mais dinheiro na conta do acionista no período, e esse dinheiro chegou. O limite está na comparação. A Selic paga enquanto o dinheiro fica aplicado, e o yield de 12 meses é o retrato de um período que já passou. Numa extraordinária, o retrato mede um pagamento sem motivo para se repetir. Por isso a comparação com a Selic só vale inteira nas seis linhas de baixo.
Recorrente, na lista, é o provento que veio do resultado da operação, e não de um ativo vendido nem de um caixa guardado por anos. Entre as seis, três passam da Selic por mais de um ponto: Vulcabras (VULC3), LAVV3 e Cury (CURY3). As outras três ficam abaixo de dois décimos de ponto: BMGB4, BB Seguridade (BBSE3) e Bradespar (BRAP4). A conta leva a folga para reais, num exemplo de R$ 10 mil, na recorrente de maior yield, na de menor e na Riachuelo.
Em R$ 10 mil, a folga sobre a Selic vale R$ 1.984 na Riachuelo, R$ 241 na Vulcabras e R$ 5 na Bradespar
A primeira coluna mede um evento, e as outras duas medem uma operação. Na BB Seguridade e na BMGB4, a mesma conta dá R$ 15 e R$ 17 no ano. Nas três de folga mínima, com o mesmo preço da ação, um provento 1,3% menor já as poria abaixo da Selic.
A Guararapes, dona da Riachuelo (RIAA3), tem o maior yield da lista, e a origem dele está num anúncio de 19 de dezembro de 2025. Naquele dia, a empresa vendeu o Midway Mall à Capitânia Capital por R$ 1,61 bilhão. No mesmo anúncio, destinou R$ 1,488 bilhão a proventos, entre dividendos e juros sobre capital próprio (JCP).
Dividir um número pelo outro dá 92%: quase todo o preço do shopping voltou ao acionista em menos de três semanas. Pela conta do Money Times, os proventos equivaliam a cerca de 28% do valor de mercado da empresa. Um shopping se vende uma vez, e a receita que o Midway gerava saiu do balanço junto com ele.
Os 28% e o yield da lista usam preços da ação de datas diferentes, e por isso um não se subtrai do outro. A ordem de grandeza, porém, está à vista. Medido pelo preço de dezembro, o evento sozinho passa da folga inteira da Guararapes sobre a Selic.
O preço do shopping não entrou inteiro no caixa na data da venda. Foram R$ 805 milhões à vista, metade do total, e a outra metade viria em quatro parcelas anuais. A Guararapes antecipou essas parcelas com o BTG Pactual a IPCA + 10,57% ao ano. Recebeu de uma vez o que chegaria em quatro anos, e pagou por isso um juro acima da inflação.
Dos R$ 1.488 milhões em proventos, R$ 683 milhões passam do que entrou à vista na venda
A segunda parcela é o que a entrada à vista não cobria. A antecipação pôs no caixa o dinheiro que chegaria nos quatro anos seguintes, descontado pelo juro do BTG. Uma empresa que paga com o que a operação gerou não tem essa linha no anúncio.
Por ação, o provento chegou em três partes: R$ 0,40 de dividendos intermediários, R$ 1,75 de intercalares e R$ 0,83 de JCP. Com os 15% retidos na fonte, o JCP líquido foi de R$ 0,70. Somadas, as três partes dão R$ 2,98 bruto por ação e R$ 2,85 líquido.
A data de corte foi 22 de dezembro de 2025. Os dividendos saíram em 30 de dezembro e o JCP em 5 de janeiro de 2026, e os dois pagamentos caem na janela que a lista mede. Recebeu quem tinha a ação ao fim do dia 22, e o guia de como receber dividendos explica como a data de corte funciona.
O PL 1.087/25, que tramitava naquele mês, previa cobrar 10% sobre dividendos acima de R$ 50 mil por mês a partir de 2026. Pelo texto, os dividendos declarados em 2025 sobre lucros de 2025 ou de anos anteriores ficariam isentos. Uma empresa com caixa na mão em dezembro tinha motivo para declarar antes da virada. A conta líquida do acionista com a tributação de dividendos e JCP mostra quanto a cobrança tira de quem passa do limite.
A janela de 12 meses até 21 de setembro de 2026 cobre o mês dessa antecipação. O motivo não volta: a isenção prevista valia para o declarado em 2025, e esse ano acabou. Quem lê o yield da Guararapes como renda anual soma, num número só, a venda de um ativo e o prazo de uma regra de imposto.
Além da Guararapes, a lista traz quatro extraordinárias, LOGG3, JSLG3, GRND3 e AUAU3, e duas mistas, ALPA4 e MDNE3. As folgas delas sobre a Selic vão de 3,11 a 16,62 pontos. Nas mistas, só uma parte do provento saiu da operação, e a lista não diz quanto é de cada origem.
A partição é a mesma que se fez com a Guararapes. O release e o aviso aos acionistas de cada empresa dizem quanto veio do lucro do ano e quanto veio de um evento. Só a primeira parcela se compara com a Selic, e é essa leitura que os relatórios de cobertura de ações fazem empresa a empresa, antes de olhar o yield.
Para quem tem uma dessas ações pela renda, a conta é tirar o evento do yield, como na Itaúsa, que rende 7% em 12 meses e 2,15% pelo declarado para 2026, e ver se sobra mais que 13,75%. A margem é menor do que a folga sugere. Na MDNE3, basta que 19% do yield tenha vindo de um evento para a parte da operação ficar abaixo da Selic; na ALPA4, bastam 26%.
Fontes
- Bora Investir (B3): confira 13 ações que pagaram dividendos acima da Selic de 13,75% no último ano (levantamento Elos Ayta Consultoria, 12 meses até 21/9/2026) (24 de setembro de 2026)
- Atlas Público, reproduzindo o Banco Central: Copom reduz a Selic para 13,75% ao ano em decisão unânime (16 de setembro de 2026)
- Money Times: Guararapes vende Midway Mall e anuncia R$ 1,488 bilhão em dividendos e JCP (19 de dezembro de 2025)
- Seu Dinheiro: corrida contra o imposto, Guararapes anuncia R$ 1,488 bilhão em dividendos e JCP com venda do Midway Mall (19 de dezembro de 2025)
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