Um bitcoin treasuries ETF investe em ações de empresas que guardam bitcoin no balanço, e não no bitcoin. O DIGY11, da B3, tinha 74,29% no STRC em 11 de setembro, a ação preferencial da Strategy que paga 12% ao ano em dólar. O hedge cambial transforma esse dividendo na estimativa de CDI mais 3% a 5%. No piso, depois de taxas e IR, sobram 13,34% ao ano, abaixo do CDI bruto.
O DIGY11 segue o índice MarketVector Bitcoin Treasury Preferred Equity BRL Hedged, do grupo VanEck, e o nome do índice descreve a carteira. São ações preferenciais (preferred equity) de empresas que guardam bitcoin no balanço (bitcoin treasury), com o dólar protegido contra o real (BRL hedged). Na carteira de 11 de setembro de 2026, publicada pelo Trademap, 74,29% estavam no STRC, da Strategy, e 4,88% no SATA, da Strive.
Ação preferencial, aqui, é o modelo americano: um papel que paga um dividendo definido pela empresa, com prioridade sobre a ação comum. Quem a tem não é dono do bitcoin da empresa nem de uma fatia dele. Tem direito ao dividendo que a empresa fixar. O bitcoin está no nome do fundo e no balanço da Strategy; na carteira do DIGY11, não aparece.
A gestão é da 3R Investimentos, e o Itaú BBA estruturou o fundo e o distribui. O DIGY11 estreou na B3 em 15 de setembro de 2026, a R$ 10,00 por cota. Eram 2,75 milhões de cotas e R$ 27,5 milhões de patrimônio. Com quase três quartos da carteira, o STRC é o que mais pesa na renda e no preço da cota.
A estimativa de lançamento do DIGY11 é de CDI mais 3% a 5% ao ano, e ela parte de cerca de 12% ao ano em dólar. Esse número é o dividendo do STRC. Sobre o valor de face de US$ 100 por ação, 12% somam US$ 12 por ano. A Strategy os paga em parcelas de US$ 0,50, duas vezes por mês: são 24 pagamentos no ano.
O hedge cambial é o que leva esse número do dólar para o CDI. O fundo recebe em dólar e, para pagar em reais sem o risco do câmbio, fecha um contrato de proteção cambial. Com ele, o fundo deixa de ganhar o juro americano embutido no dólar e passa a ganhar o juro brasileiro. Em linhas gerais, o retorno em reais passa a ser o CDI mais um spread. O spread é a diferença entre o que a carteira rende em dólar e o juro americano, menos os custos.
Por isso a estimativa vem escrita como CDI mais 3% a 5%. O hedge, que costuma ser lido como custo, é o que dá esse formato ao número, e a troca soma a favor do cotista sempre que o juro brasileiro está acima do americano. A conta também anda ao contrário. Se o juro americano subir e o brasileiro ficar parado, o spread encolhe, mesmo com o STRC pagando os mesmos 12%.
A faixa é uma estimativa de lançamento, e não um rendimento contratado. O CDI anualizado estava em 13,65% ao ano em 9 de outubro de 2026, na série do Banco Central. Somados os 3 a 5 pontos, a estimativa dá 16,65% a 18,65% brutos ao ano. Esse é o juro do dia, anualizado, e o CDI acumulado no ano mostra quanto ele rendeu de fato desde janeiro.
A taxa do STRC muda por decisão da Strategy, que a anuncia todo mês. O desenho do papel prevê ajustá-la para manter o preço perto da face de US$ 100. Se o papel negocia abaixo da face, a empresa tem motivo para subir a taxa e atrair comprador; se negocia acima, para baixá-la. Para outubro de 2026, a Strategy manteve 12,00% ao ano, o quarto mês seguido nesse nível desde julho. Segundo a Crypto Briefing, a empresa tem cerca de US$ 2,55 bilhões em reservas em dólar para esses dividendos.
Para ver onde o STRC fica, ajuda pensar numa fila de pagamento. Os credores da Strategy estão na frente, e o STRF, outra ação preferencial da empresa, também passa antes do STRC. O acionista comum fica atrás do STRC. O STRC é capital próprio preferencial, sem bitcoin como garantia, e tem direito só ao patrimônio que sobrar depois de pagos os que estão à frente.
O risco dessa posição aparece no preço. Em junho de 2026, o STRC chegou à mínima recorde de cerca de US$ 89, abaixo da face. A distância de US$ 11 até os US$ 100 equivale a 22 pagamentos de US$ 0,50, quase um ano de dividendo. Num exemplo em que o resto da carteira ficasse parado, uma queda de 11% no STRC tiraria perto de 8% da cota do DIGY11.
O rendimento do DIGY11 é, portanto, uma decisão de empresa sobre um papel subordinado. Ele não tem o valor fixo do cupom de um título de dívida, e não vem do bitcoin, que não paga juro a ninguém. Quem paga os 12% é a Strategy, com o caixa e a capacidade de captação dela.
Entre a estimativa bruta e o que chega ao cotista ficam as taxas e o imposto. O DIGY11 cobra 0,90% ao ano de gestão, 0,055% de administração e custódia e até 0,25% de distribuição. Cada distribuição tem 15% de imposto de renda retido na fonte, pela Lei 14.754, de 2023.
A conta abaixo parte das duas pontas da estimativa, num exemplo com R$ 10.000, e tira delas as duas taxas fixas e o imposto.
Do CDI mais 3% a 5% do DIGY11 sobram 13,34% a 15,04% ao ano depois das taxas e do IR
No piso, o que sobra fica abaixo do CDI bruto, e a taxa de distribuição, que ficou fora da conta, só reduz essa margem. No teto, a vantagem sobre o CDI passa pouco de um ponto ao ano. Essa é a remuneração por ter quase três quartos do dinheiro num papel subordinado de uma empresa só, com a taxa refixada todo mês.
A comparação com o CDI bruto tem um lado a favor do DIGY11: o título atrelado ao CDI também paga imposto de renda, com alíquota que muda conforme o prazo. O guia do imposto de renda sobre investimentos traz a tabela para fazer a comparação líquida dos dois lados.
O ETF de bitcoin à vista compra a própria moeda e a deixa com um custodiante, e a cota sobe e desce com o preço dela. O texto sobre a estrutura e o custo do ETF de bitcoin na B3 mostra as camadas desse fundo. O DIGY11 tem outra carteira, outra fonte de retorno e outro risco.
O DIGY11 tem 74,29% em STRC e nenhum bitcoin; o ETF à vista guarda a própria moeda
Em 7 de outubro de 2026, o bitcoin voltou a cair para perto de US$ 83 mil, segundo o Estadão, e em 12 meses ele rendeu menos que o CDI. Não sabemos para onde vai o preço. No ETF à vista, uma queda dessas passa direto para a cota. No DIGY11, o caminho é indireto: o bitcoin pesa no balanço da Strategy e na facilidade com que ela levanta dinheiro.
Por isso, numa semana ruim de bitcoin, os dois fundos podem cair juntos, por motivos diferentes. O ETF à vista cai com o preço da moeda. O DIGY11 cai se o mercado passar a exigir um rendimento maior para comprar o STRC, por duvidar de que a Strategy mantenha os 12%.
Para quem tem DIGY11, a renda do mês seguinte se decide no anúncio da taxa do STRC, não na cotação do bitcoin. Com o STRC em 74,29% da carteira, cada ponto de corte nessa taxa tira perto de 0,74 ponto ao ano da renda do fundo. A conta é anterior às taxas e ao imposto.
Na carteira, o DIGY11 entra pelo que paga e pelo risco que carrega: renda de uma empresa americana, convertida para reais. Organizar a carteira por categoria antes de por ativo deixa isso visível. Assim, a cota com bitcoin no nome não infla o peso que a carteira tem em cripto.
A tarefa do imposto é anotar, em cada pagamento, o valor bruto e o retido. Cada distribuição chega com os 15% já descontados na fonte, e o que cai na conta é o líquido. No exemplo da conta acima, com R$ 10.000 no fundo e a estimativa no piso, a retenção soma perto de R$ 235 no ano.
Fontes
- Trademap: ETF ligado ao Bitcoin estreia na B3 com promessa de renda mensal em reais (15 de setembro de 2026)
- Money Times: OranjeBTC (OBTC3) anuncia data de estreia do primeiro ETF de bitcoin treasuries na B3; Itaú BBA será distribuidor (11 de setembro de 2026)
- Crypto Briefing: Strategy mantém o dividendo do STRC em 12% para outubro de 2026 (1 de outubro de 2026)
- CoinDesk: ação preferencial STRC da Strategy atinge mínima recorde abaixo do valor de face (18 de junho de 2026)
- Banco Central do Brasil: série SGS 4389, CDI anualizado (9 de outubro de 2026)
- Lei nº 14.754, de 12 de dezembro de 2023 (12 de dezembro de 2023)
- Estadão: bitcoin volta a cair para perto de US$ 83 mil (8 de outubro de 2026)
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