64 empresas saíram da B3 de 2024 a 17 de março de 2026, 8 delas em 2026, pela contagem da TradeMap. Para quem tem a ação, a saída chega por uma OPA, e o preço não se negocia. Na Neoenergia, ele veio do bloco que a Iberdrola comprou da Previ, sem laudo independente. Corrigido pela Selic, foi de R$ 32,50 a R$ 33,77 no leilão.
O levantamento da TradeMap, publicado pelo Times Brasil em 17 de março de 2026, conta 18 deslistagens em 2024 e 38 em 2025. As saídas mais que dobraram de um ano para o outro. As 8 de 2026 aconteceram em 76 dias, uma a cada nove dias e meio, o mesmo ritmo de 2025.
Outras contagens chegam a outros números, porque medem períodos diferentes e contam coisas diferentes. Entre as empresas que saíram estão Cielo, Carrefour Brasil, Santos Brasil, BRF, Grupo Soma, Sinqia, Eletromidia e Eletropar, da lista do Poder360.
| Levantamento | Período | O que conta | Empresas |
|---|---|---|---|
| Poder360 | out/2023 a out/2025 | Listadas a menos, de 416 para 368 | 48 |
| TradeMap | jan/2024 a 17/3/2026 | Deslistagens | 64 |
| Elos Ayta | 2023 a mar/2026 | Empresas que fecharam o capital | 37 |
Para quem tem a ação, o fechamento de capital chega como uma OPA, a oferta pública de aquisição de ações. Nela, o controlador compra as ações em circulação para cancelar o registro da empresa na bolsa. O caso da Neoenergia (NEOE3), do anúncio em novembro de 2025 ao leilão de 9 de abril de 2026, mostra de onde vem esse preço: de um negócio fechado antes da oferta, do qual o minoritário não participou.
A OPA para cancelar o registro segue a Resolução CVM 215. Na leitura do Investidor10, três regras decidem o que acontece com quem tem a ação:
- O laudo de avaliação, o documento que estima o valor da ação, pode ser dispensado. Basta um negócio recente entre partes independentes ou, como referência, a cotação máxima dos últimos 12 meses.
- Donos de 10% das ações em circulação podem pedir uma assembleia para que se faça nova avaliação.
- O registro só se cancela com a adesão de 2/3 das ações em circulação. Se o free float, a parte do capital fora das mãos do controlador, for menor que 5%, basta a maioria simples.
Nenhuma das três regras põe o preço em negociação. Cada acionista decide se vende, e a soma das adesões decide se o registro cai. Quem discorda do número pode, no máximo, juntar acionistas suficientes para pedir outra avaliação. Na Neoenergia havia um negócio recente entre partes independentes, e foi ele que deu o preço.
Em 31 de outubro de 2025, a Previ, o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, vendeu à Iberdrola 367,647 milhões de ações da Neoenergia. Eram 30,29% do capital, a R$ 32,50 cada, ou R$ 11,95 bilhões. Com o bloco, a controladora chegou a 83,8% da empresa. Foi um negócio entre partes independentes, o tipo de transação que a Resolução 215 aceita como referência de preço.
A OPA foi anunciada em 24 de novembro de 2025 com o mesmo preço por ação e prêmio de 7,98% sobre o fechamento de 21 de novembro. Pela conta inversa, a ação valia perto de R$ 30,10 naquele dia. O preço foi tratado como justo por ser o do negócio com a Previ, e a oferta saiu sem laudo independente. A esse preço, a Neoenergia inteira valia R$ 39,3 bilhões, e as ações em circulação, cerca de R$ 6,4 bilhões.
O prêmio de 7,98% mede a distância entre o preço da oferta e a cotação de um dia, e não diz como esse preço se formou. A regra foi cumprida. A Previ negociou o próprio bloco, e o preço desse bloco passou a valer para todos os outros acionistas.
O leilão aconteceu em 9 de abril de 2026, e o preço pago foi de R$ 33,77 por ação. A diferença para o anúncio não veio de negociação. O edital previa corrigir o preço pela Selic desde 31 de outubro de 2025, a data do bloco da Previ, e ajustá-lo pelos dividendos do período. A taxa de cada reunião do Copom nesses meses está no histórico da Selic.
A OPA da Neoenergia anunciou R$ 32,50 e pagou R$ 33,77 no leilão, 3,9% a mais
Os 3,9% são a Selic de pouco mais de cinco meses, já com o ajuste pelos dividendos, e não um prêmio novo. Num exemplo com 1.000 ações, quem vendeu no leilão recebeu R$ 33.770, R$ 1.270 a mais que pelo preço do anúncio. Ao todo, a Iberdrola pagou R$ 5,825 bilhões por 172.512.742 ações, com liquidação em 24 de abril.
Com 83,8% do capital nas mãos da Iberdrola, o free float da Neoenergia era de 16,2% antes do leilão. No leilão, a controladora comprou 14,21% do capital.
O leilão levou a Iberdrola de 83,8% a 98% do capital da Neoenergia
Os 14,21% vendidos são 87,7% do free float (14,21 dividido por 16,2), bem acima dos dois terços que a Resolução 215 pede para cancelar o registro. A Iberdrola terminou com 1.189.541.854 ações, e ficaram cerca de 24,26 milhões em circulação.
A adesão mede quantos aceitaram o preço fixado entre Iberdrola e Previ em outubro, mais a correção. Ela não diz se esse preço era alto ou baixo, porque não houve laudo com que compará-lo.
As ações que restaram são 2% do capital e valiam perto de R$ 819 milhões ao preço do leilão (24,26 milhões de ações a R$ 33,77). Com tão pouco em circulação, faltam compradores e vendedores no pregão. Por isso o desconto que a falta de liquidez cobra na B3 passa a pesar sobre quem ficou.
Pela cobertura do Money Times e do InfoMoney, quem não vendeu pôde vender as ações até 11 de maio de 2026, pelo mesmo preço corrigido pela Selic. Com o free float abaixo de 5%, a Iberdrola convocaria uma assembleia de resgate compulsório. O resgate tira do mercado as ações restantes mesmo sem a adesão do dono. Na Neoenergia, recusar o leilão deu um mês a mais de prazo, ao mesmo preço corrigido.
No edital da próxima OPA, o primeiro ponto é a origem do preço, e o prêmio sobre a cotação vem depois. São cinco pontos, todos no documento:
- De onde vem o preço de referência: laudo, negócio recente entre partes independentes ou cotação máxima de 12 meses.
- Se há laudo de avaliação independente, e quem o assina.
- O critério de correção: o índice, a data de partida e o ajuste por dividendos.
- O quórum de adesão e a distância do free float até os 5%.
- O prazo para vender depois do leilão, e a que preço.
Na Neoenergia, as três primeiras respostas eram públicas desde novembro de 2025: o bloco da Previ, nenhum laudo, a Selic desde 31 de outubro. Para quem vendeu, a correção de 3,9% faz parte do preço de venda e entra no ganho sobre o qual se calcula o imposto de renda na venda de ações. O ganho sai do preço, da data e da quantidade da venda, registrados ao lado das compras, contra o preço médio.
Fontes
- Times Brasil (CNBC): B3 em baixa, fuga de empresas expõe fragilidade da bolsa (levantamento TradeMap e Elos Ayta) (17 de março de 2026)
- Poder360: 48 empresas deixaram a bolsa de valores em 3 anos (6 de dezembro de 2025)
- Investidor10: OPA, entenda o que isto quer dizer no mundo dos negócios (15 de julho de 2026)
- NeoFeed: Neoenergia engrossa a lista das empresas que podem deixar a B3 (24 de novembro de 2025)
- EuQueroInvestir: OPA Neoenergia, Iberdrola protocola oferta (24 de novembro de 2025)
- InfoMoney: Iberdrola eleva participação na Neoenergia (NEOE3) para 98% após OPA (10 de abril de 2026)
- Money Times: Neoenergia (NEOE3), Iberdrola eleva participação para cerca de 98% após OPA; operação soma R$ 5,8 bilhões (9 de abril de 2026)
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