Balanço de banco se lê em quatro linhas, nesta ordem: margem financeira, provisão para perdas (PDD), inadimplência acima de 90 dias e ROAE. O lucro sai das duas primeiras, e a linha que antecipa o próximo trimestre é a provisão medida contra a margem. No 3T26 do Bradesco, o lucro quase não mudou no trimestre. A PDD cresceu 24,3% em 12 meses e passou a levar 49,8% da margem.
O roteiro usual para ler um resultado trimestral foi feito para a indústria: receita, EBITDA, fluxo de caixa e dívida líquida sobre EBITDA. O EBITDA é o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização. Num banco, o juro é a própria operação, e um lucro medido antes dele deixaria a receita de fora. O caixa sobe e desce com depósitos e empréstimos, e não confere o lucro como confere numa fábrica. Quem faz esse papel é a margem financeira, descontada a provisão.
Por isso o balanço de banco se lê em quatro linhas, nesta ordem:
- Margem financeira: o juro que o banco recebe menos o juro que paga. É a receita.
- Provisão (PDD): a parte do resultado que o banco separa para os empréstimos que espera não receber. Lê-se contra a margem.
- Inadimplência acima de 90 dias: o atraso que já aconteceu. Diz se a provisão bastou.
- ROAE: o lucro sobre o patrimônio médio do acionista. Mede quanto o banco devolve por real de capital.
O lucro fica entre a segunda e a quarta linha: é o que sobra da margem e das tarifas depois da provisão, das despesas e dos impostos. Dessas contas, a provisão é a que mais depende de escolha contábil, porque o próprio banco estima quanto separar a cada trimestre. Cada real a mais na PDD sai do lucro antes do imposto.
O Bradesco (BBDC4) divulgou o resultado do terceiro trimestre de 2026 em 22 de outubro, e os números deste texto são os publicados pela InfoMoney no mesmo dia. O lucro líquido recorrente, que deixa de fora o que não se repete, foi de R$ 7,1 bilhões. É 14,6% mais que no 3T25 e 0,8% mais que no 2T26, em linha com o consenso, a média das estimativas dos analistas. Lido sozinho, o lucro mostra um trimestre igual ao anterior; o que mudou está na provisão e no atraso, lidos linha a linha abaixo.
A margem financeira é a diferença entre dois juros. De um lado, o que o banco cobra nos empréstimos e recebe nos títulos que carrega. Do outro, o que ele paga para captar, em depósitos, poupança e CDB. Ela cresce por dois caminhos: a carteira de crédito aumenta, ou a distância entre as duas taxas, o spread, se abre.
No 3T26, a margem financeira total do Bradesco foi de R$ 21,3 bilhões, alta de 14,2% em 12 meses e de 2,4% sobre o 2T26. A receita total, que soma à margem as tarifas e as demais receitas, chegou a R$ 38,0 bilhões, contra R$ 37,7 bilhões esperados pelos analistas.
Por esse lado, o trimestre foi bom. A receita veio acima do esperado, e a margem cresceu em um ano no mesmo passo do lucro, perto de 14%. Uma leitura que parasse na receita e no lucro terminaria aqui, com um trimestre sem defeito.
A PDD, provisão para devedores duvidosos, é o valor que o banco tira do resultado para cobrir os empréstimos que espera não receber. Ela entra antes do calote, como estimativa do próprio banco sobre a carteira que tem. O Bradesco publica uma versão que chama de expandida, mais ampla que a provisão da carteira de crédito. É essa versão que se compara com a margem.
No 3T26, a PDD expandida do Bradesco somou R$ 10,6 bilhões, 24,3% a mais que um ano antes. A margem cresceu 14,2% no mesmo período, e a provisão andou 10,1 pontos percentuais mais rápido. No trimestre, a PDD subiu 6,6%, e a margem, 2,4%.
A comparação é com a margem porque a provisão sai dela. A conta abaixo mostra quanto de cada R$ 100 de margem virou provisão no 3T26 e um ano antes:
A provisão passou a levar 49,8% da margem financeira do Bradesco, contra 45,7% um ano antes
Em um ano, a provisão passou a levar perto de R$ 4 a mais de cada R$ 100 de margem. Em reais, sobraram R$ 10,7 bilhões da margem do 3T26 depois da PDD. É dessa sobra, somada às tarifas, que saem as despesas, os impostos e o lucro.
Desfeitas as altas de 12 meses, a margem do 3T25 era de R$ 18,65 bilhões, e a PDD, de R$ 8,53 bilhões. A sobra ficava em R$ 10,12 bilhões e cresceu 5,7% até o 3T26, contra 14,6% do lucro recorrente. A diferença veio de tarifas, de outras receitas, de despesa ou de imposto menor.
Enquanto a PDD crescer mais rápido que a margem, o lucro depende dessas outras linhas para não encolher. Por isso a provisão medida contra a margem diz mais sobre o próximo trimestre do que o lucro do último.
A PDD é uma estimativa. A inadimplência acima de 90 dias mede o atraso que de fato aconteceu: a parte da carteira de crédito com parcela vencida há mais de 90 dias. Trimestre a trimestre, é ela que diz se a estimativa bastou.
No Bradesco, o índice estava em 4,1% no 3T25, passou a 4,3% no 2T26 e chegou a 4,6% no 3T26. São 0,5 ponto percentual em 12 meses, e 0,3 deles no último trimestre. Em três meses, o atraso subiu mais do que nos nove meses anteriores somados. A PDD acompanha esse atraso, porque o banco separa mais quando vê mais parcela vencida.
O banco atribui a alta a pequenas e médias empresas e a atrasos sazonais em operações ligadas à John Deere, fabricante de máquinas agrícolas. A explicação tem mérito na segunda parte. Atraso sazonal segue o calendário do cliente, e a parte que é só sazonal se desfaz quando ele volta a pagar. A parte das pequenas e médias empresas não tem calendário, e só o balanço do 4T26 mostra se ela parou de subir.
O ROAE, retorno sobre o patrimônio líquido médio, é o lucro do período, anualizado, dividido pelo patrimônio médio do acionista. Mede quanto o banco devolve para cada real que os sócios mantêm nele. Ele cai por dois caminhos: o lucro diminui, ou o patrimônio cresce mais rápido que o lucro.
O do Bradesco foi de 16,2% no 2T26 para 15,6% no 3T26. Sem o efeito do aumento de capital recente, teria ficado em 16,1%. A queda se parte assim:
Do ROAE de 16,2% ao de 15,6%, o aumento de capital tira 0,5 ponto e a operação, 0,1
Quase toda a queda está no denominador. O aumento de capital pôs mais patrimônio no banco, e o lucro de um trimestre ainda não rende sobre esse dinheiro novo. A relação entre esse aumento e os proventos está em o JCP do Bradesco depois do aumento de capital.
Separadas as duas parcelas, os 15,6% não medem piora do negócio. Sem o capital novo, o retorno ficou quase igual ao do 2T26, como o lucro. Essa estabilidade veio num trimestre em que a provisão levou uma fatia maior da margem.
Lidas lado a lado, as linhas do Bradesco nos dois últimos trimestres mostram para onde cada uma anda:
| Linha do balanço | 2T26 | 3T26 |
|---|---|---|
| Lucro líquido recorrente | R$ 7,05 bilhões | R$ 7,1 bilhões |
| Alta do lucro em 12 meses | 16,2% | 14,6% |
| PDD expandida | R$ 10 bilhões | R$ 10,6 bilhões |
| Alta da PDD em 12 meses | 22,6% | 24,3% |
| Inadimplência acima de 90 dias | 4,3% | 4,6% |
| ROAE | 16,2% | 15,6% |
De um trimestre para o outro, a alta do lucro em 12 meses perdeu 1,6 ponto percentual, e a da PDD ganhou 1,7 ponto. O lucro continua acima do de um ano antes, mas a alta dele perdeu força enquanto a da provisão ganhou. Lido sozinho, o lucro não mostra essa direção.
Santander, Itaú e Banco do Brasil publicam o 3T26 em 28 de outubro, 4 de novembro e 11 de novembro, nessa ordem. O balanço trimestral do Itaú se lê com as mesmas quatro linhas. Elas servem também a quem tem o banco por meio da Itaúsa, cujos dividendos dependem em boa parte do que o Itaú distribui. Margem, provisão, atraso e retorno sobre o patrimônio são o ponto de partida dos relatórios de cobertura de ações quando a empresa é um banco.
Para quem tem ações do Bradesco, a linha que decide o próximo balanço é a inadimplência acima de 90 dias. A PDD já leva perto de metade da margem, e só deixa de crescer mais rápido que a margem quando o atraso parar de subir.
Fontes
- InfoMoney: resultado do Bradesco (BBDC4) no 3T26 (lucro recorrente de R$ 7,1 bilhões, margem financeira de R$ 21,3 bilhões, PDD expandida de R$ 10,6 bilhões, inadimplência acima de 90 dias de 4,6% e ROAE de 15,6%, 16,1% sem o aumento de capital) (22 de outubro de 2026)
- InfoMoney: resultado do Bradesco (BBDC4) no 2T26 (lucro recorrente de R$ 7,05 bilhões, ROAE de 16,2%, PDD expandida de R$ 10 bilhões e inadimplência acima de 90 dias de 4,3%) (5 de agosto de 2026)
- Seu Dinheiro: o que esperar dos balanços de Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil no 3T26 (calendário de divulgação) (21 de outubro de 2026)
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