A inflação de serviços em 2026 soma 4,16% de janeiro a setembro e 5,97% em 12 meses. Nos 12 meses, os serviços ficam 1,39 ponto acima do IPCA cheio, de 4,58%. De julho a setembro, rodaram a 4,8% ao ano, abaixo dos 12 meses e ainda acima do teto de 4,5% da meta. É esse ritmo, e não o IPCA do mês, que diz se os cortes da Selic se sustentam.
A conta parte da série mensal dos serviços do IPCA que o Banco Central publica, a SGS 10844. Cada mês entra como fator, e os fatores se multiplicam: o 0,61% de setembro vira 1,0061. Assim compostos, os nove meses de 2026 dão 4,16%, e os 12 meses de outubro de 2025 a setembro de 2026 dão 5,97%.
No mesmo período, o IPCA em 12 meses chegou a 4,58%, acima do teto de 4,5% da meta. O índice cheio é uma média ponderada que inclui os próprios serviços. Se a média ficou em 4,58% com os serviços a 5,97%, o resto da cesta, de alimentos a bens industriais, subiu menos que isso.
O IPCA de setembro, divulgado pelo IBGE em 9 de outubro, foi de 0,82% no mês, depois de um agosto negativo. Esse foi o número das manchetes, ao lado do IPCA acima do teto e das expectativas do Focus. O índice de um mês oscila com a parte volátil da cesta. O acumulado dos serviços quase não se move de um mês para outro: era de 5,84% em julho, pela mesma conta, e chegou a 5,97% em setembro.
Os serviços do IPCA reúnem, entre outros, aluguel, refeição fora de casa, empregado doméstico, cabeleireiro, conserto do carro e mensalidade escolar. Boa parte desse preço é salário, e boa parte dos contratos se reajusta pela inflação passada. Por isso o grupo responde devagar ao juro: o aperto precisa chegar ao emprego e ao salário antes de chegar ao preço.
| Mês de 2026 | Serviços no mês | Acumulado no ano |
|---|---|---|
| Janeiro | 0,10% | 0,10% |
| Fevereiro | 1,51% | 1,61% |
| Março | 0,53% | 2,15% |
| Abril | 0,04% | 2,19% |
| Maio | 0,40% | 2,60% |
| Junho | 0,33% | 2,94% |
| Julho | 0,54% | 3,49% |
| Agosto | 0,03% | 3,53% |
| Setembro | 0,61% | 4,16% |
O ano teve dois meses perto de zero, abril e agosto. Fevereiro, sozinho, respondeu por mais de um terço do acumulado: 1,51% dos 4,16%. É o mês dos reajustes de começo de ano, como o das mensalidades escolares, e esse calendário se repete todo ano.
Por isso, anualizar um mês erra para os dois lados. O 0,54% de julho, repetido por 12 meses, daria 6,7% ao ano; o 0,03% de agosto daria 0,4%. O acumulado de 12 meses tira o calendário da conta, porque cada mês do ano entra nele uma vez.
Entre o mês isolado e os 12 meses há uma medida intermediária: o trimestre composto e levado a um ano. Ela reage mais rápido que o acumulado de 12 meses e oscila menos que um mês sozinho. De julho a setembro de 2026, a conta é esta:
De julho a setembro os serviços subiram 1,18%, um ritmo de 4,8% ao ano, acima do teto de 4,5%
Os 4,8% ficam abaixo dos 5,97% de 12 meses e 0,3 ponto acima do teto, mesmo com o 0,03% de agosto dentro do trimestre. A mesma conta, feita para cada trimestre dos últimos 12 meses, mostra que o ritmo não desce em linha reta.
| Trimestre | Serviços no trimestre | Ritmo ao ano |
|---|---|---|
| Outubro a dezembro de 2025 | 1,74% | 7,1% |
| Janeiro a março de 2026 | 2,15% | 8,9% |
| Abril a junho de 2026 | 0,77% | 3,1% |
| Julho a setembro de 2026 | 1,18% | 4,8% |
O primeiro trimestre carrega os reajustes de fevereiro. O segundo rodou a 3,1% ao ano, abaixo do teto, e o terceiro voltou para cima dele. Um trimestre abaixo do teto já aconteceu em 2026, e não se repetiu no seguinte.
O IPCA de setembro trouxe outras duas réguas, lidas pelo Investing. Os serviços subjacentes, que o Banco Central calcula tirando dos serviços os itens que mais oscilam, vieram acima dos 0,27% esperados. Os núcleos são medidas que limpam o índice inteiro dos preços mais voláteis. A média dos cinco ficou em 0,36% no mês e em 4,8% no trimestre anualizado, também acima do teto.
Em 16 de setembro de 2026, o Copom levou a Selic de 14% para 13,75% ao ano, por unanimidade. Foi o quinto corte seguido, e o histórico da Selic mostra cada um, reunião a reunião. Os serviços estavam acima de 5% em 12 meses antes da reunião e continuaram acima depois dela. O IPCA de 4,58%, acima do teto, saiu pouco mais de três semanas depois do corte.
O ciclo tem precedente. Em 2012, o Banco Central cortou a Selic ao longo do ano com a inflação de serviços resistente. Em 2013 começou um ciclo de alta que, nos anos seguintes, devolveu o corte inteiro. A meta e a regra fiscal de 2026 são outras; o que se repete é cortar com a parte mais lenta do índice ainda alta.
Para o ciclo se sustentar, o ritmo dos serviços precisa descer ao teto e ficar lá. Em três meses, 4,5% ao ano equivalem a 1,11%, a raiz quarta de 1,045. De julho a setembro foram 1,18%, e o primeiro dado depois do corte trouxe os subjacentes acima do esperado. Não sabemos quando a virada vem; a condição se confere a cada IPCA, e até setembro não foi cumprida.
Em 18 de dezembro de 2025, o InfoMoney publicou as projeções de duas casas para os serviços de 2026: 5,3% na XP e 5,5% no Itaú. Com 4,16% realizados em nove meses, cada projeção virou uma conta sobre três meses. O fator da projeção dividido pelo fator do que já passou dá o que outubro, novembro e dezembro precisam acumular.
| Hipótese para outubro a dezembro | Quarto trimestre | Serviços em 2026 |
|---|---|---|
| Fechar o ano nos 5,3% da XP | 1,09% | 5,30% |
| Correr no ritmo do teto, 4,5% ao ano | 1,11% | 5,31% |
| Repetir o terceiro trimestre de 2026 | 1,18% | 5,39% |
| Fechar o ano nos 5,5% do Itaú | 1,29% | 5,50% |
| Repetir o quarto trimestre de 2025 | 1,74% | 5,97% |
O quarto trimestre de 2025 sai da diferença entre os dois acumulados: 1,0597 dividido por 1,0416 dá 1,74%. Repetido, ele deixaria 2026 nos mesmos 5,97% dos 12 meses até setembro. O terceiro trimestre de 2026, repetido, cai no meio da faixa projetada.
A tabela é aritmética de condição, e não previsão. Nove meses depois, o realizado não se afastou do que se projetava em dezembro: os serviços de 2026 não surpreenderam para baixo. A projeção da XP, a mais baixa das duas, só se cumpre se o quarto trimestre rodar no ritmo do teto, ou um pouco abaixo dele.
Cada corte de 0,25 ponto na Selic tira 0,25 ponto do rendimento bruto anual do Tesouro Selic e do CDB que paga 100% do CDI, e também alivia a conta de uma dívida pública com 52,74% indexada à Selic. Num exemplo com R$ 10 mil, são R$ 25 por ano antes do imposto.
A distância entre os serviços e o índice cheio pesa mais. A Selic de 13,75%, descontada a inflação dos 12 meses até setembro, dá 7,3% pela régua dos serviços (1,1375 dividido por 1,0597). Pela régua do IPCA cheio, dá 8,8%. A diferença de 1,4 ponto vale perto de R$ 140 por ano nos mesmos R$ 10 mil, mais que cinco cortes de 0,25 ponto. A régua dos serviços é a mais próxima de quem gasta sobretudo com aluguel, escola e serviços pessoais.
As duas contas usam a inflação passada e o rendimento bruto. O juro real ex-ante troca a inflação passada pela esperada, e a conta do pós-fixado depois do imposto tira o imposto de renda do rendimento.
Quem tem prefixado travou uma taxa que, como as da curva de juros futuros, já embute uma inflação esperada. Se os serviços seguirem acima do teto, a inflação que esse dinheiro enfrenta sobe, e a sobra acima dela encolhe. A primeira leitura do quarto trimestre sai em novembro, com o IPCA de outubro.
Fontes
- Banco Central do Brasil, SGS 10844: IPCA, serviços, variação mensal (9 de outubro de 2026)
- Safra, O Especialista: IPCA de setembro de 2026 e inflação de 4,58% em 12 meses (9 de outubro de 2026)
- Agência Brasil: IPCA de setembro de 2026 (9 de outubro de 2026)
- Investing.com: IPCA, núcleos e serviços pioram e testam espaço para novos cortes da Selic (9 de outubro de 2026)
- Metrópoles: Copom reduz a Selic e juros caem para 13,75% ao ano (16 de setembro de 2026)
- InfoMoney: pressão em alimentos, serviços e gastos públicos vão ditar o tom da inflação em 2026 (18 de dezembro de 2025)
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