Em agosto de 2026, 52,74% da Dívida Pública Federal estava indexada à Selic, o maior nível da série do Tesouro, iniciada em 2000. São R$ 4,90 trilhões de R$ 9,293 trilhões, e cada ponto de juro custa R$ 49 bilhões por ano. Desde o fim de 2024, o ponto encareceu R$ 15 bilhões, e mais de 60% da alta veio da dívida 27% maior, não da fatia recorde.
O Tesouro Nacional divulgou em 28 de setembro os números de agosto da Dívida Pública Federal. O estoque ficou praticamente parado, com alta de 0,04% sobre os R$ 9,289 trilhões de julho. A composição, não: a parcela indexada à Selic passou de 51,11% para 52,74%, e aplicada ao estoque dá R$ 4,90 trilhões.
Dívida indexada à Selic é a que paga a taxa básica do período, como o Tesouro Selic vendido no Tesouro Direto. Quando a Selic sobe, a despesa de juros sobe junto, e o risco da alta fica com o Tesouro, que emitiu o título. Daí a conta: cada ponto de Selic sobre R$ 4,90 trilhões custa R$ 49 bilhões de juros por ano.
A multiplicação congela o estoque de agosto e supõe que toda a parcela renda exatamente a Selic. Ela mede o tamanho da exposição, e não a despesa contábil de um mês.
O restante da dívida se divide entre três indexadores, na composição de agosto reproduzida pelo Utilitários Contábeis.
| Indexador | Parcela da dívida federal em agosto de 2026 |
|---|---|
| Selic | 52,74% |
| Índices de preços | 23,22% |
| Prefixados | 20,31% |
| Câmbio | 3,74% |
Nos prefixados, a taxa fica travada até o vencimento; nos títulos atrelados à inflação, trava-se o juro acima do IPCA. Nas duas parcelas, 43,53% do total, a decisão do Copom não muda a taxa contratada. Na parcela em Selic, o custo muda a cada reunião.
Com os números do Tesouro para o fim de 2023 e de 2024, publicados pela B3 Bora Investir em janeiro de 2025, a mesma multiplicação vale para os dois anos anteriores. No fim de 2023, 39,66% de uma dívida de R$ 6,52 trilhões rendiam a Selic. No fim de 2024, eram 46,29% de R$ 7,316 trilhões.
O ponto de Selic custava R$ 26 bilhões em 2023 e custa R$ 49 bilhões em agosto de 2026
Entre o fim de 2024 e agosto de 2026, o ponto encareceu R$ 15 bilhões por ano, em valores nominais. Em 2023, com a fatia ainda abaixo de 40%, ele custava pouco mais da metade do valor de agosto.
A manchete de setembro acerta no fato: a fatia em Selic nunca foi tão alta. Desde o fim de 2024, ela subiu 6,45 pontos percentuais. Mas o estoque também cresceu no período, R$ 1,977 trilhão a mais em 20 meses, ou 27%. O encarecimento do ponto tem, portanto, duas origens, e a conta separa cada uma.
O ponto de Selic ficou R$ 15 bilhões mais caro desde 2024, e R$ 10 bilhões vieram da dívida maior
A divisão depende da ordem da conta, mas o resultado não muda de lado. Na ordem inversa, a alta da fatia é medida sobre a dívida de agosto, e a dívida a mais, pela fatia de 2024. Aí a fatia responde por R$ 6,0 bilhões e o estoque por R$ 9,2 bilhões, mais de 60% da alta.
Na nossa leitura, a manchete pôs o foco no número errado. O recorde da composição chama a atenção, mas o que mais encareceu o ponto de Selic foi o tamanho da dívida. E o tamanho é assunto fiscal: depende de quanto o governo gasta além do que arrecada, e dos juros que se somam ao estoque. Nos prazos longos, o mesmo fiscal aparece como o prêmio que a curva de juros embute.
Agosto mostra, num mês só, como a dívida cresce com os próprios juros. O Tesouro resgatou R$ 84,43 bilhões líquidos, isto é, pagou aos credores mais do que captou com títulos novos. Ainda assim, o estoque não caiu, porque R$ 88,39 bilhões de juros foram somados a ele. A diferença, de R$ 3,96 bilhões, é a alta de 0,04% do mês.
O juro somado ao estoque passa a render juro no mês seguinte. Com mais da metade da dívida em Selic, a taxa desse juro é a do Copom, e o valor dele cresce junto com o estoque. A dívida a mais desde o fim de 2024 inclui meses como agosto, em que os juros superaram os resgates.
No mesmo mês, o custo médio da dívida em 12 meses subiu de 12,45% para 12,59% ao ano. O indicador olha para trás, e o corte de setembro só entra nele aos poucos.
Em 16 de setembro, o Copom cortou a Selic de 14,00% para 13,75% ao ano, como mostra o histórico da Selic. Na parcela pós-fixada, o corte de 0,25 ponto chega à despesa logo depois da decisão. Sobre a dívida de agosto, ele reduz os juros em R$ 12,25 bilhões por ano. Sobre a do fim de 2024, a redução seria de R$ 8,5 bilhões.
A indexação funciona nos dois sentidos, e o efeito de cada corte cresceu porque a dívida cresceu. Mas o corte é pequeno diante do nível da taxa: tirar 0,25 ponto de 14% reduz em 1,8% o que a parcela em Selic paga. E nenhum corte diminui a dívida que já existe.
O Copom decide pela inflação, e não pela fatura do Tesouro. Com o dado de setembro, divulgado pelo IBGE em 9 de outubro, o IPCA em 12 meses chegou a 4,58%, acima do teto da meta. Com a inflação nesse ponto, contar com cortes para aliviar o Tesouro é pedir ao Banco Central uma tarefa fora do mandato dele.
Uma crítica a esse arranjo, registrada pelo InfoMoney em fevereiro de 2025, é que a indexação tira força da política monetária. A decomposição do custo do ponto soma outro problema a esse. Ainda que a indexação não tirasse força nenhuma da Selic, o ponto teria encarecido, porque a dívida cresceu.
Quem tem Tesouro Selic é credor direto da parcela pós-fixada: recebe a taxa do período, e o risco de ela subir fica com o Tesouro. Quem tem CDB atrelado ao CDI recebe uma taxa que anda colada na Selic, mas o devedor é o banco. Num exemplo com R$ 100 mil, cada ponto de Selic vale R$ 1.000 por ano, antes do imposto. O corte de setembro tirou R$ 250 desse rendimento anual.
Contra a inflação passada, 13,75% de Selic e 4,58% de IPCA em 12 meses dão 9,17 pontos de diferença. É uma medida ex-post, feita com a inflação que já aconteceu. A conta com a inflação esperada está na explicação de por que o juro real brasileiro é alto.
Sobram duas perguntas de proporção. A primeira é quanto da sua carteira depende de a Selic seguir nesse nível, e ela se lê no peso dos pós-fixados na posição consolidada. A segunda é quanto custa ao Tesouro sustentar esse nível, e ela se lê todo mês na composição da dívida.
Fontes
- Agência Brasil (Tesouro Nacional): Dívida Pública Federal fica estável em agosto e chega a R$ 9,29 trilhões (28 de setembro de 2026)
- Utilitários Contábeis: Dívida pública federal chega a R$ 9,29 trilhões em agosto e parcela da Selic tem novo recorde (30 de setembro de 2026)
- B3 Bora Investir (Tesouro Nacional): Dívida pública sobe 12,2% em 2024 e supera R$ 7,3 trilhões (28 de janeiro de 2025)
- InfoMoney: a parcela da dívida pública indexada à Selic e a crítica à indexação (5 de fevereiro de 2025)
- Banco Central do Brasil: meta da taxa Selic, série SGS 432 (16 de setembro de 2026)
- Agência Brasil (IBGE): inflação oficial de setembro fica em 0,82% (9 de outubro de 2026)
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