A relação entre Selic e inflação se mede pelo juro real: em 12 de outubro de 2026, ele é de 8,3% ao ano. É a Selic de 13,75% descontada do IPCA de 5,01% esperado para 2026. Depois do imposto, que incide também sobre a parte que só repõe a inflação, o pós-fixado entrega de 5,4% a 6,4% acima dela. Esse patamar depende mais do fiscal que do Copom.
A Selic é a taxa básica de juros, definida pelo Copom, o comitê de política monetária do Banco Central. Em 12 de outubro de 2026, a meta da Selic na série do Banco Central está em 13,75% ao ano. O Tesouro Selic paga essa taxa, e o CDI, referência dos CDBs pós-fixados, anda colado a ela.
O IPCA é a inflação oficial, medida pelo IBGE. O acumulado de 12 meses até setembro de 2026, divulgado em 9 de outubro, foi de 4,58%. Esse número olha para trás. A inflação esperada vem do Focus, a pesquisa semanal do Banco Central com economistas. Na edição de 5 de outubro, a mediana para o IPCA de 2026 era de 5,01%.
O juro real é a Selic descontada da inflação, e a conta se faz por divisão, não por subtração. Contra a inflação medida, 1,1375 dividido por 1,0458 dá 8,8% ao ano, perto de 4,6 vezes o crescimento do PIB. Contra a esperada, 1,1375 dividido por 1,0501 dá 8,3%. O segundo número é o juro real ex-ante, o ganho acima da inflação que se espera daqui para a frente. É ele que mede o aperto, porque a Selic de hoje age sobre a inflação que ainda vem.
A Selic sozinha não diz se o juro é alto: os mesmos 13,75% com inflação de 10% dariam pouco mais de 3% de juro real. Pelo juro real, o aperto brasileiro está perto do topo do mundo. Em agosto de 2026, um ranking da MoneYou com 40 economias punha o Brasil em segundo lugar, com juro real ex-ante de 9,33% ao ano. O artigo sobre o juro real do Brasil mostra por que o aperto ficou mesmo depois de a Selic cair.
A relação entre Selic e inflação é inversa: juro mais alto segura os preços, e juro mais baixo os solta. A regra está certa, mas não diz por onde a Selic chega aos preços. São três canais, com prazos diferentes, e por isso uma decisão do Copom aparece no IPCA meses depois.
O primeiro canal é o crédito. Com a Selic alta, o empréstimo encarece, e consumo e investimento desaceleram. A economia passa a produzir abaixo do que poderia sem pressionar preços, e essa folga se chama hiato. O mesmo Focus espera crescimento do PIB de 1,85% em 2026 e de 1,40% em 2027, a desaceleração que o aperto procura.
O segundo é o câmbio. Juro alto aqui, comparado com o de fora, atrai dinheiro para ativos em reais e segura o dólar, o que barateia o produto importado. O dólar, porém, responde a muito mais que o juro, e a diferença entre o juro daqui e o dos Estados Unidos é só uma das forças. Câmbio não se prevê, e este texto não tenta.
O terceiro canal, e o que mais pesa, é a expectativa. Empresas reajustam preços e trabalhadores negociam salários pela inflação que esperam, e a expectativa de hoje vira a inflação de amanhã. Por isso o Copom decide pela inflação esperada para um ou dois anos à frente, e não pelo último IPCA. A Selic de outubro de 2026 mira, na prática, a inflação de 2027.
O caminho mais lento é o dos serviços. O preço de um serviço é sobretudo salário. Salários e contratos se reajustam pela inflação passada, e isso dá a essa parte do IPCA uma inércia que o crédito caro demora a quebrar. O artigo sobre a inflação de serviços em 2026 mostra o componente que não cedeu ao aperto.
A meta de inflação é de 3% ao ano, com tolerância de 1,5 ponto percentual (p.p.) para cada lado, e o teto fica em 4,5%. Os 4,58% do IPCA em 12 meses passaram do teto por 0,08 p.p. Os 5,01% que o Focus espera para 2026 passam por 0,51 p.p.
O Focus serve para medir surpresa, não para adivinhar o dado. Para setembro, os economistas esperavam IPCA de 0,60%, e o IBGE mediu 0,82%: 0,22 p.p. de surpresa num só mês. Quem puxou o índice foi a energia elétrica, que subiu 7,98% com o fim do bônus de Itaipu, um desconto na conta de luz.
Uma tarifa como essa entra no índice de uma vez. O Copom acompanha se ela contamina a expectativa, e a de 2026 subiu pela terceira semana seguida no Focus de 5 de outubro. É a expectativa que trava o corte de juros, como mostra o artigo sobre o IPCA acima da meta em 2026.
Mais à frente, o mesmo Focus espera IPCA de 4,30% em 2027 e de 3,8% em 2028. A inflação esperada volta para dentro do intervalo em 2027, e em 2028 ainda fica 0,8 p.p. acima do centro de 3%.
No Tesouro Selic e no CDB pós-fixado, o imposto de renda segue a tabela regressiva, descrita na página da Receita Federal sobre aplicações financeiras. A alíquota é de 22,5% para aplicações de até 180 dias, 20% até 360 dias, 17,5% até 720 dias e 15% acima disso. O imposto incide sobre o rendimento nominal, o juro inteiro, incluída a parte que só repõe a inflação.
A conta abaixo aplica cada alíquota a R$ 10.000 rendendo a Selic por um ano e desconta a inflação esperada para 2026. O resultado é o juro real líquido, o que sobra em poder de compra depois do imposto.
Com a Selic a 13,75%, o juro real depois do imposto vai de 5,4% a 6,4%
Da alíquota mais alta à mais baixa, o imposto tira de quase 3 p.p. a pouco menos de 2 p.p. do juro real. Um ano exato de aplicação cai na terceira coluna, a de 17,5%. O artigo sobre o Tesouro Selic em 2026 compara, em juro real, o pós-fixado com o título indexado à inflação.
LCI e LCA, as letras de crédito imobiliário e do agronegócio, são isentas de imposto de renda para pessoa física. Por isso uma LCI a 85% do CDI empata com um CDB a 100% do CDI acima de 720 dias: 100% menos 15% de imposto dá 85%. Até 180 dias, o empate cai para 77,5% do CDI, porque a alíquota do CDB é maior.
O Tesouro IPCA+ paga a inflação do período mais uma taxa fixa. Quem compra costuma ler a taxa fixa como o juro real que vai receber, e antes do imposto é isso mesmo. Depois, os 15% de quem leva o título por mais de 720 dias incidem sobre o rendimento inteiro, com a correção pela inflação.
Em julho de 2026, o Tesouro IPCA+ 2032 pagava IPCA mais 8,20% ao ano. A taxa caiu na semana de 5 de outubro, e a de julho entra aqui como exemplo. Com ela e a inflação de 5,01% esperada, o rendimento nominal de um ano é de 13,62%, porque 1,082 vezes 1,0501 dá 1,1362. Tirados 15%, sobram 11,58%, e descontada a inflação, 6,3% de juro real. O imposto tirou 1,9 p.p. dos 8,20%, quando 15% da taxa real fariam supor 1,2 p.p.
No IPCA+ a 8,20%, R$ 75 dos R$ 204 de imposto incidem sobre a inflação
A parcela da correção é imposto sobre dinheiro que não compra nada a mais do que os R$ 10.000 compravam um ano antes. Ela cresce com a inflação e pesa mais no imposto total quanto menor for a taxa real contratada. No pós-fixado acontece o mesmo, mas ali a taxa já vem em termos nominais. No IPCA+, a taxa vem anunciada como real, e o imposto sobre a inflação some de vista.
A conta vale para quem leva o título ao vencimento. Quem vende antes recebe o preço do dia, que sobe quando a taxa do título cai e cai quando ela sobe. É a marcação a mercado do Tesouro IPCA+. Foi ela, com a queda do juro real, que levou os títulos atrelados ao IPCA a render mais que o CDI em setembro de 2026.
Os três canais explicam como a Selic chega aos preços. Não explicam por que o Brasil precisa de 8,3% de juro real para trazer a inflação à meta. A razão está no fiscal: o gasto do governo e a regra do arcabouço fiscal e a dívida mexem na inflação esperada e no prêmio cobrado para emprestar ao Tesouro. O Copom reage aos dois.
O patamar do juro real já mudou antes, e a mudança levou anos. Pelo IBRE, da FGV, o juro real médio foi de 11,3% ao ano entre 2000 e 2007 e de 5,2% entre 2008 e 2017. Os 8,3% de outubro de 2026 ficam entre as duas médias, 3,1 p.p. acima da segunda. A comparação é de ordem de grandeza, porque põe médias de oito e de dez anos ao lado do dado de um dia.
A Selic também pesa no próprio fiscal. Parte da dívida pública rende Selic, e por isso o juro mais alto aumenta a despesa do Tesouro e a mesma dívida que sustenta o prêmio. Quanto cada ponto de Selic custa à dívida pública está no artigo sobre a dívida indexada.
O prêmio aparece no título longo. Os 8,20% acima do IPCA que o Tesouro IPCA+ 2032 pagava em julho eram quase os 8,3% de juro real da Selic de outubro. Quem emprestava ao governo por seis anos pedia quase o mesmo que quem empresta por um dia. A curva embutia juro real alto pelo prazo inteiro, ou cobrava um prêmio pelo risco de ele não cair. Nas duas leituras a causa é fiscal, e o artigo sobre o Tesouro IPCA+ a 8% mostra o que a taxa embute.
Nos vencimentos longos, a curva de juros futuros também se afasta do Focus, pelo mesmo motivo. Por isso desconfiamos do anúncio de fim do juro alto a cada corte da Selic. O prêmio responde ao fiscal, e o fiscal não muda de uma reunião do Copom para a outra.
O Focus de 5 de outubro tem Selic de 13,5% no fim de 2026, 12% no fim de 2027 e 10,5% no fim de 2028. É a mediana do que os economistas esperam, não um fato. A conta abaixo converte dois pontos dessa trajetória em juro real, com a inflação esperada para cada ano.
Com a Selic do Focus para o fim de 2028, o juro real cai de 8,3% para 6,5%
Da Selic de hoje à do fim de 2027, a taxa nominal cai 1,75 p.p. e o juro real, 0,9 p.p. Até 2028, a nominal cai 3,25 p.p. e o real, perto de 1,9 p.p. A inflação esperada cai junto com a Selic, e o corte que vira manchete chega ao juro real pela metade, ou pouco mais. Mesmo no fim da trajetória, o juro real ficaria acima da média de 5,2% de 2008 a 2017.
Para quem tem Tesouro Selic ou CDB pós-fixado, o rendimento acompanha a Selic que vier, sem opinião sobre a curva. Em R$ 10.000, um ano com a Selic de hoje rende cerca de R$ 832 acima da inflação, antes do imposto (quanto rende 100 mil no CDI por mês faz a conta em reais). Com a Selic do fim de 2028, seriam cerca de R$ 645. Depois do imposto de 15%, o juro real líquido iria de 6,4% para 4,9% ao ano.
Quem trava prefixado ou IPCA+ troca a conveniência do pós-fixado por uma opinião sobre a curva. Ganha do pós-fixado se o juro que vier ficar abaixo do que a taxa travada embute, e perde se ficar acima. No prefixado, essa opinião é sobretudo fiscal.
Fontes
- Banco Central do Brasil, SGS 432: meta da Selic (12 de outubro de 2026)
- Agência Brasil (IBGE): inflação oficial de setembro fica em 0,82% (9 de outubro de 2026)
- Agência Brasil (Banco Central, Boletim Focus): mercado eleva previsão da inflação para 5,01% em 2026 (5 de outubro de 2026)
- Receita Federal: imposto de renda sobre aplicações financeiras (12 de outubro de 2026)
- InfoMoney: ranking de juros reais (MoneYou), agosto de 2026 (11 de agosto de 2026)
- Seu Dinheiro: Tesouro IPCA+ 8%, travar as taxas por seis anos ou por décadas (9 de julho de 2026)
- Blog do IBRE (FGV): evolução histórica das taxas de juros reais e de seus determinantes no Brasil (22 de junho de 2023)
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