Vesuvian
Cédulas de real espalhadas sobre uma mesa de madeira

Inflação supera CDI em 2026? Não: IPCA a 4,58%, CDI a 10,50%

Equipe Vesuvian8 min de leitura

A inflação não superou o CDI em 2026. O IPCA soma 4,58% em 12 meses até setembro, e o CDI rendeu 10,50% nos nove primeiros meses do ano. Nem em setembro a inflação passou o CDI: 0,82% contra 1,08%. O que superou o CDI foi o preço das NTN-B, que subiu com a queda do juro real. Esse ganho ficou com quem já tinha o título.

A inflação ficou abaixo do CDI no ano e também em setembro

O IPCA de setembro, divulgado pelo IBGE em 9 de outubro, subiu 0,82%, depois da deflação de 0,32% em agosto. A conta de luz respondeu por 0,32 ponto percentual (p.p.) do índice do mês. Com isso, o IPCA em 12 meses chegou a 4,58%, acima do teto de 4,5% da meta de inflação.

O CDI rendeu mais que o dobro disso em nove meses, três a menos que a janela do IPCA. A série do Banco Central traz os nove CDIs mensais de 2026, de 1,00% em fevereiro a 1,22% em julho. Compostos, juro sobre juro, eles dão 1,1050: 1,0116 de janeiro vezes 1,0100 de fevereiro, e assim até o 1,0108 de setembro. São os 10,50% do CDI acumulado no ano.

No mês, o CDI de 1,08% ficou 0,26 p.p. acima do IPCA. Quem tinha CDB a 100% do CDI terminou setembro, antes do imposto, com mais poder de compra do que tinha no começo.

A manchete de que os índices de inflação superaram o CDI vem do boletim de setembro da Anbima, e mede outra coisa. Os índices do boletim são o IMA-B e seus recortes, que acompanham carteiras de NTN-B. A NTN-B é o título do Tesouro corrigido pelo IPCA, vendido no Tesouro Direto como Tesouro IPCA+. O IPCA é só uma das parcelas do retorno desses títulos, e em setembro respondeu por pouco mais de um quinto do índice longo.

IMA-B e CDI em setembro de 2026: quem passou o CDI foi o preço da NTN-B

Pelos números da Anbima, o IMA-B 5+, que reúne as NTN-B com vencimento acima de cinco anos, rendeu 3,83% em setembro. O IMA-B, com todos os vencimentos, rendeu 3,15%, e o IMA-B 5, só com os de até cinco anos, 2,01%. Os três passaram o CDI, e os três corrigem o valor dos títulos pelo mesmo IPCA.

O retorno de uma NTN-B no mês soma três parcelas: a correção pelo IPCA, o juro real contratado e a marcação a mercado. A marcação é a mudança de preço quando a taxa negociada no mercado muda. Entre o índice longo e o curto, a distância é de 1,82 p.p. Nenhuma parte dela vem da inflação, porque a correção foi a mesma nos dois.

Dos 3,83% do IMA-B 5+ em setembro, 0,82 ponto veio do IPCA e 1,82 do prazo

Correção pelo IPCAa mesma em toda NTN-BJuro contratado e preço,comuns aos curtosIMA-B 5 menos o IPCAO que o prazo longoacrescentouIMA-B 5+ menos IMA-B 5IMA-B 5+ em setembroNTN-B com vencimento acimade cinco anos
0,82%
1,19 ponto
1,82 ponto
3,83%
A correção diária das NTN-B usa a projeção do IPCA do mês; a conta usa o índice fechado de setembro, do IBGE, como aproximação. A parcela do meio junta o juro real contratado e a marcação que os títulos curtos também tiveram. Fonte: Anbima, 30/9/2026.

No boletim da Anbima, Leonardo Medina explicou o mês pela queda dos juros reais: quando eles recuam, o preço dos títulos sobe, e sobe mais nos vencimentos longos. O preço de uma NTN-B é o que ela paga no futuro, trazido a valor de hoje pela taxa real do dia. Quanto mais anos esse desconto cobre, mais o preço muda a cada décimo de taxa. A conta da marcação a mercado no Tesouro IPCA+ 2032 refaz o mecanismo passo a passo. Em setembro, os três índices ficaram na ordem do prazo, do curto ao longo.

Até julho o CDI ganhava da NTN-B curta em 2026, e dois meses viraram o placar

No acumulado do ano, a NTN-B curta passou o CDI tarde. Até julho, o IMA-B 5 somava 7,80% em 2026, e o CDI, 8,14%: eram 0,34 p.p. a favor do CDI. Até setembro, o placar virou para 11,37% contra 10,50%, ou 0,87 p.p. a favor do IMA-B 5.

Como o retorno se compõe, o que agosto e setembro renderam juntos sai da divisão de um acumulado pelo outro, e não da subtração.

Agosto e setembro renderam 3,31% no IMA-B 5 e 2,18% no CDI, e viraram o placar do ano

IMA-B 5
CDI
Acumulado até julho
7,80%
8,14%
em fator
1,0780
1,0814
Acumulado até setembro
11,37%
10,50%
em fator
1,1137
1,1050
Agosto e setembro, isolados pela divisão
3,31%
2,18%
Os acumulados do IMA-B 5 são números da Anbima lidos em publicações de terceiros: até julho, num relatório de renda fixa do BB; até setembro, no Grupo Amanhã. O CDI é a composição dos CDIs mensais da série do Banco Central. Dividir o fator até setembro pelo fator até julho isola os dois meses. Fonte: Anbima, lido no Grupo Amanhã, e Banco Central, 5/10/2026.

Em dois meses, o IMA-B 5 rendeu 1,13 p.p. a mais que o CDI e desfez a desvantagem de sete. A virada começou em agosto, antes do boletim de setembro: os seis índices da Anbima atrelados à inflação renderam entre 1,26% e 1,81% no mês, contra 1,09% do CDI.

Uma carteira igual à do IMA-B 5, montada em janeiro, estava atrás do CDI no fim de julho e à frente no fim de setembro. A taxa contratada era a mesma nas duas datas; o que mudou foi o preço.

R$ 10 mil no índice longo ganharam R$ 383 em setembro, ainda só no extrato

Quem tem CDB pós-fixado recebe um percentual do CDI, e o preço do papel não muda com a taxa negociada no mercado. Num exemplo com R$ 10 mil a 100% do CDI, setembro rendeu R$ 108 antes do imposto (quanto rende 100 mil no CDI por mês mostra a mesma conta em outra escala). A mesma quantia numa carteira igual à do IMA-B 5+ ganhou R$ 383.

A diferença de R$ 275 veio do prazo, e o prazo age nos dois sentidos. No mês em que o juro real sobe, o título longo perde preço pelo mesmo mecanismo que o fez subir em setembro. Quem tem NTN-B longa carrega essa exposição ao juro real, saiba disso ou não.

Enquanto o título fica na carteira, o ganho de setembro é marcação a mercado: aparece no extrato e muda a cada dia com a taxa. Só a venda o realiza, com imposto de renda sobre o lucro. Medir o retorno da carteira contra o CDI no mesmo período separa o que veio de agosto e setembro do que veio dos sete meses anteriores.

CDI ou Tesouro IPCA+ depois de setembro: o CDI paga de 8,3% a 8,8% acima da inflação

Quem compra o Tesouro IPCA+ depois de setembro não leva o ganho do mês. A compra contrata a taxa real do dia, já menor que a de agosto, porque foi a queda dela que subiu o preço. Levado ao vencimento, o título paga o IPCA do período mais essa taxa.

Essa taxa se compara com o juro real que o CDI entrega. Em 13 de outubro, a meta da Selic em vigor na série do Banco Central é de 13,75% ao ano, e o CDI acompanha a Selic. Descontado o IPCA de 12 meses, 1,1375 dividido por 1,0458 dá 1,0877: 8,8% ao ano acima da inflação passada. O Focus, a pesquisa semanal do Banco Central com economistas, esperava em 5 de outubro um IPCA de 5,01% em 2026. Com ele, a mesma divisão dá 8,3%, o juro real ex-ante, medido contra a inflação esperada.

Os dois números têm limites. O Focus mede a inflação esperada para o ano-calendário, do qual nove meses já passaram, e não a dos próximos 12 meses. Ele subiu pela terceira semana seguida e mostra o que já é esperado, não o que vai acontecer. O que o IPCA acima do teto e o Focus em alta pesam no Copom decide por quanto tempo a Selic fica onde está.

A comparação também não é simétrica. A taxa do Tesouro IPCA+ fica travada até o vencimento, mesmo que a Selic caia depois. Os 8,3% a 8,8% do CDI valem enquanto a Selic e a inflação ficarem onde estão em outubro, e só a taxa do título fica contratada.

Perguntas frequentes

Não exatamente. O índice é uma carteira teórica, sem custo nem imposto. O fundo que o acompanha cobra taxa de administração e recolhe imposto de renda, inclusive o come-cotas dos fundos abertos de renda fixa. Ele também monta a própria carteira, que pode se afastar da do índice. Por isso o retorno do cotista costuma ficar abaixo do índice, e a distância cresce com a taxa cobrada.
Na mesma janela e em termos reais. O IPCA em 12 meses cobre de outubro do ano anterior a setembro; o CDI do ano, de janeiro a setembro. Para um mesmo período, divide-se o fator do CDI pelo fator do IPCA e subtrai-se um: o resultado é o ganho em poder de compra. A diferença simples entre as duas taxas exagera um pouco esse ganho, e o exagero cresce com o nível das taxas.
Só quando se realiza. Enquanto a NTN-B fica na carteira, a alta de preço muda o saldo bruto do extrato, e o imposto exibido é uma estimativa. Na venda antes do vencimento, ou no próprio vencimento, o imposto de renda incide sobre o lucro. A alíquota segue a tabela regressiva da renda fixa e cai com o tempo de aplicação. Num fundo de inflação aberto, o come-cotas antecipa parte dele.
Não muda o rendimento nominal: o CDB pós-fixado segue o CDI, que acompanha a Selic. Muda o rendimento real, porque cada ponto a mais de inflação tira perto de um ponto do ganho em poder de compra. O efeito sobre o rendimento nominal só viria pela Selic, se o Copom reagir à inflação acima do teto. Isso só a decisão de cada reunião mostra.

Fontes

  1. Anbima: após arrancada em agosto, índices de inflação aceleram em setembro e superam CDI (30 de setembro de 2026)
  2. Grupo Amanhã (números da Anbima): índices atrelados ao IPCA superam CDI em setembro, com o acumulado do ano (5 de outubro de 2026)
  3. Investidor Institucional (números da Anbima): índices de inflação aceleram em setembro e superam CDI, com o resultado de agosto (31 de agosto de 2026)
  4. Relatório de renda fixa do BB, julho de 2026: IMA-B 5 acumulado no ano (31 de julho de 2026)
  5. Banco Central do Brasil, SGS 4391: CDI mensal (1 de outubro de 2026)
  6. Agência Brasil (IBGE): inflação oficial de setembro fica em 0,82% (9 de outubro de 2026)
  7. Banco Central do Brasil, SGS 432: meta da Selic (13 de outubro de 2026)
  8. Agência Brasil (Banco Central, Boletim Focus): mercado eleva previsão da inflação para 5,01% em 2026 (5 de outubro de 2026)

Este artigo é análise da Vesuvian, publicada com fins informativos. Não constitui recomendação de compra ou venda de qualquer ativo, nem promessa ou projeção de rentabilidade. Toda decisão de investimento é de responsabilidade de quem a toma. Rentabilidade passada não assegura rentabilidade futura. Produzido pela Equipe Vesuvian com uso de inteligência artificial e revisão editorial. Veja a política editorial.