A prova de reservas da Binance confere uma coisa: se, na data de corte, as carteiras tinham cripto para todos os saldos dos clientes. Ela não mostra as outras dívidas da empresa nem o que acontece depois dessa data. A Binance cobriu com dinheiro próprio o roubo de US$ 6,3 bilhões de 29 de outubro, e esse dinheiro também fica fora da prova. Na volta dos saques, 2,1% dos depósitos saíram em 9,5 horas.
A prova de reservas compara duas listas tiradas na mesma data de corte. Numa estão os saldos dos clientes, moeda por moeda, como aparecem nas contas. Na outra está o que há nas carteiras que a corretora controla na rede. Se a segunda cobre a primeira, a Binance tinha naquele dia cripto para entregar todos os saldos.
O documento é um atestado: uma firma de fora confere que as duas listas batem na data, e o trabalho termina aí. Uma auditoria iria além e examinaria a contabilidade inteira, com as dívidas e os resultados da empresa. A diferença pesa agora, porque a Binance anunciou uma prova para 2 de novembro, quatro dias depois do roubo.
Uma prova feita depois do roubo responde se as carteiras voltaram a cobrir os saldos dos clientes. O número dela, qualquer que seja, não diz quanto dinheiro sobrou à Binance depois de pagar o rombo.
A prova funciona como o backup de um disco. Ela copia o que estava gravado num instante e não registra nada do que se escreve depois. Um saque grande na manhã seguinte, uma cripto emprestada a outra empresa, uma perda numa operação da própria corretora: nada disso entra no arquivo. Ele continua dizendo o que havia na data de corte.
A prova também olha um lado só do balanço. Os saldos em cripto dos clientes entram na conta. Os empréstimos que a empresa tomou e os títulos que emitiu ficam fora, e com eles os derivativos, contratos cujo valor segue o preço de outro ativo, e qualquer outra dívida.
Por isso a prova responde se o saldo existia naquele dia, e não se a empresa consegue pagar tudo o que deve. Uma corretora que deve mais do que tem passa na prova, desde que tenha cripto para todos os saldos dos clientes. Para a prova, ela é igual a uma corretora que não deve nada. Se uma corretora assim quebra, o saldo segue o caminho descrito em o que acontece com o saldo quando a corretora de cripto fecha.
Em 29 de outubro, a Binance perdeu US$ 6,3 bilhões (R$ 33,9 bilhões), a maior parte em 20 minutos. Para cobrir o rombo, separou US$ 6,34 bilhões do SAFU, o fundo de reserva da corretora, e do próprio caixa. Cerca de US$ 5 bilhões disso já estavam nos mesmos tokens levados. O valor separado passa o roubo em US$ 40 milhões, ou 100,6% do que saiu.
Parte do roubo travou no caminho. A Tether congelou US$ 1,77 bilhão e a Circle, US$ 825 milhões: US$ 2,595 bilhões, pela conta do Tecnoblog. Outras contagens chegam a cerca de US$ 3 bilhões. As duas emitem stablecoins, criptos que prometem valer um dólar, e por isso conseguem travar o próprio token na rede, como mostra o texto sobre quem é o emissor de uma stablecoin e o que ele deve.
O resto do roubo não volta por esse caminho: moeda sem emissor, como o bitcoin e o ether, não tem quem a congele. Na hipótese mais favorável à Binance, em que todo o valor congelado volta para ela, a conta fica assim:
Mesmo com todo o congelado de volta, US$ 3,705 bilhões do roubo saem do caixa da Binance
Os US$ 3,705 bilhões são 58,8% do roubo, pagos com o patrimônio da Binance, a parte do balanço que a prova não enxerga. O cliente vê o saldo inteiro na tela porque a empresa absorveu a perda. Quanto ela tinha antes do pagamento, e quanto tem depois, fica fora de qualquer lista de carteiras e saldos.
Os saques voltaram em 1º de novembro. Nas primeiras 9,5 horas, os clientes tiraram US$ 4,649 bilhões e depositaram US$ 1,01 bilhão, uma saída líquida de US$ 3,64 bilhões. Os números são da CoinPost, citada pelo Digital Today, e não da própria corretora.
Contra os US$ 171 bilhões depositados na Binance em 28 de outubro, véspera do roubo, a saída foi de 2,1%. Em média, saíram US$ 383 milhões por hora.
O fluxo líquido, o que sai menos o que entra, é a medida que a prova de reservas não tem. A prova diz o que havia na data de corte; o fluxo mostra, hora a hora, o que os clientes fizeram depois. Uma saída de 2,1% cabe numa corretora que tenha cripto para todos os saldos, que é o que a prova afirma. O que a saída mede é a confiança no que a prova deixa de fora: as outras dívidas e o caixa que pagou o roubo.
A Binance já passou por uma saída parecida. Em dezembro de 2022, a Mazars tirou do ar o relatório de reservas que assinava para a corretora e parou de atender clientes de cripto. Naquela semana, a Binance teve US$ 6 bilhões de saques líquidos.
Em 2022, o dinheiro saiu quando a firma que conferia as duas listas deixou de conferir. Agora o rombo foi coberto, e mesmo assim saíram em 9,5 horas US$ 3,64 bilhões, 60,7% do que saiu naquela semana inteira. Contada por hora, a distância cresce:
Em 9,5 horas, a saída da Binance correu 10,7 vezes mais depressa que na semana sem a Mazars
A conta supõe ritmo constante nas duas janelas. Por isso ela mede a velocidade da saída, e não quanto ainda vai sair.
Cripto deixada numa corretora fica sob a chave privada dela, o código que autoriza mover a moeda na rede. O saldo na conta é a promessa de que a corretora entrega a moeda quando o cliente pedir. O FGC, o fundo que garante depósitos em banco, não cobre essa promessa. A Binance diz guardar os ativos dos clientes brasileiros em carteiras frias, sem conexão com a internet, e a chave delas segue com a corretora.
Sozinho, o SAFU, de cerca de US$ 1 bilhão, cobriria 15,9% do roubo de outubro. O resto do valor separado veio do caixa, por decisão da empresa. O cliente ficou sem perda porque a Binance quis e pôde pagar, e nenhuma regra a obrigava a isso.
A tarefa que o roubo deixa é um inventário: quanto do patrimônio em cripto está em cada corretora e quanto está sob chave própria. Num exemplo, se você tem R$ 20 mil em cripto, com R$ 15 mil na Binance e R$ 5 mil numa carteira própria, 75% dependem da promessa de uma empresa só. Com as posições de várias corretoras reunidas num lugar só, essa porcentagem se confere de uma vez. O texto sobre onde guardar criptomoedas compara as duas pontas, da corretora à chave própria.
Fontes
- Tecnoblog: Binance perde US$ 6,3 bilhões no maior roubo de criptomoedas do mundo (valor roubado, R$ 33,9 bilhões, e congelamento pela Tether e pela Circle) (30 de outubro de 2026)
- Cryptobriefing: Binance first proof of reserves snapshot (US$ 6,34 bilhões separados, cerca de US$ 5 bilhões nos tokens roubados) (30 de outubro de 2026)
- Cryptoticker: Binance proof of reserves na segunda-feira, US$ 6,34 bilhões (o que a prova compara e o que deixa de fora) (2 de novembro de 2026)
- Digital Today, citando a CoinPost: Binance sees US$ 3.64 billion net outflows after withdrawals resume, deposited assets down 2.1 percent (2 de novembro de 2026)
- bpmoney: Tenho criptomoedas na Binance, o que acontece com meu dinheiro? (SAFU como reserva privada e carteiras frias dos clientes brasileiros) (30 de outubro de 2026)
- Mais Retorno: Binance, empresa contratada para garantir reservas de clientes interrompe trabalho (Mazars e US$ 6 bilhões de saques na semana) (16 de dezembro de 2022)
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