Vesuvian
Moedas de bitcoin ao lado de uma carteira física de criptomoedas

Prova de reservas da Binance mostra o saldo, não as dívidas

Equipe Vesuvian8 min de leitura

A prova de reservas da Binance confere uma coisa: se, na data de corte, as carteiras tinham cripto para todos os saldos dos clientes. Ela não mostra as outras dívidas da empresa nem o que acontece depois dessa data. A Binance cobriu com dinheiro próprio o roubo de US$ 6,3 bilhões de 29 de outubro, e esse dinheiro também fica fora da prova. Na volta dos saques, 2,1% dos depósitos saíram em 9,5 horas.

O que é a prova de reservas: duas listas comparadas numa data

A prova de reservas compara duas listas tiradas na mesma data de corte. Numa estão os saldos dos clientes, moeda por moeda, como aparecem nas contas. Na outra está o que há nas carteiras que a corretora controla na rede. Se a segunda cobre a primeira, a Binance tinha naquele dia cripto para entregar todos os saldos.

O documento é um atestado: uma firma de fora confere que as duas listas batem na data, e o trabalho termina aí. Uma auditoria iria além e examinaria a contabilidade inteira, com as dívidas e os resultados da empresa. A diferença pesa agora, porque a Binance anunciou uma prova para 2 de novembro, quatro dias depois do roubo.

Uma prova feita depois do roubo responde se as carteiras voltaram a cobrir os saldos dos clientes. O número dela, qualquer que seja, não diz quanto dinheiro sobrou à Binance depois de pagar o rombo.

Fora da prova ficam as outras dívidas e o dia seguinte

A prova funciona como o backup de um disco. Ela copia o que estava gravado num instante e não registra nada do que se escreve depois. Um saque grande na manhã seguinte, uma cripto emprestada a outra empresa, uma perda numa operação da própria corretora: nada disso entra no arquivo. Ele continua dizendo o que havia na data de corte.

A prova também olha um lado só do balanço. Os saldos em cripto dos clientes entram na conta. Os empréstimos que a empresa tomou e os títulos que emitiu ficam fora, e com eles os derivativos, contratos cujo valor segue o preço de outro ativo, e qualquer outra dívida.

Por isso a prova responde se o saldo existia naquele dia, e não se a empresa consegue pagar tudo o que deve. Uma corretora que deve mais do que tem passa na prova, desde que tenha cripto para todos os saldos dos clientes. Para a prova, ela é igual a uma corretora que não deve nada. Se uma corretora assim quebra, o saldo segue o caminho descrito em o que acontece com o saldo quando a corretora de cripto fecha.

Quem paga o rombo: US$ 3,705 bilhões não voltam pelo congelamento

Em 29 de outubro, a Binance perdeu US$ 6,3 bilhões (R$ 33,9 bilhões), a maior parte em 20 minutos. Para cobrir o rombo, separou US$ 6,34 bilhões do SAFU, o fundo de reserva da corretora, e do próprio caixa. Cerca de US$ 5 bilhões disso já estavam nos mesmos tokens levados. O valor separado passa o roubo em US$ 40 milhões, ou 100,6% do que saiu.

Parte do roubo travou no caminho. A Tether congelou US$ 1,77 bilhão e a Circle, US$ 825 milhões: US$ 2,595 bilhões, pela conta do Tecnoblog. Outras contagens chegam a cerca de US$ 3 bilhões. As duas emitem stablecoins, criptos que prometem valer um dólar, e por isso conseguem travar o próprio token na rede, como mostra o texto sobre quem é o emissor de uma stablecoin e o que ele deve.

O resto do roubo não volta por esse caminho: moeda sem emissor, como o bitcoin e o ether, não tem quem a congele. Na hipótese mais favorável à Binance, em que todo o valor congelado volta para ela, a conta fica assim:

Mesmo com todo o congelado de volta, US$ 3,705 bilhões do roubo saem do caixa da Binance

Roubado em 29/10/2026Congelado pelas emissoras destablecoinTether e CirclePago com o patrimônio da Binanceo lado que a prova de reservas nãomostra
6,3
− 2,6
3,7
Hipótese do exercício: todo o valor congelado pela Tether e pela Circle volta à Binance. Valores em US$ bilhões. Fonte: Tecnoblog, 30/10/2026.

Os US$ 3,705 bilhões são 58,8% do roubo, pagos com o patrimônio da Binance, a parte do balanço que a prova não enxerga. O cliente vê o saldo inteiro na tela porque a empresa absorveu a perda. Quanto ela tinha antes do pagamento, e quanto tem depois, fica fora de qualquer lista de carteiras e saldos.

Saques retomados na Binance: US$ 3,64 bilhões saíram em 9,5 horas

Os saques voltaram em 1º de novembro. Nas primeiras 9,5 horas, os clientes tiraram US$ 4,649 bilhões e depositaram US$ 1,01 bilhão, uma saída líquida de US$ 3,64 bilhões. Os números são da CoinPost, citada pelo Digital Today, e não da própria corretora.

Contra os US$ 171 bilhões depositados na Binance em 28 de outubro, véspera do roubo, a saída foi de 2,1%. Em média, saíram US$ 383 milhões por hora.

O fluxo líquido, o que sai menos o que entra, é a medida que a prova de reservas não tem. A prova diz o que havia na data de corte; o fluxo mostra, hora a hora, o que os clientes fizeram depois. Uma saída de 2,1% cabe numa corretora que tenha cripto para todos os saldos, que é o que a prova afirma. O que a saída mede é a confiança no que a prova deixa de fora: as outras dívidas e o caixa que pagou o roubo.

Em 2022, a semana sem o relatório da Mazars custou US$ 6 bilhões à Binance

A Binance já passou por uma saída parecida. Em dezembro de 2022, a Mazars tirou do ar o relatório de reservas que assinava para a corretora e parou de atender clientes de cripto. Naquela semana, a Binance teve US$ 6 bilhões de saques líquidos.

Em 2022, o dinheiro saiu quando a firma que conferia as duas listas deixou de conferir. Agora o rombo foi coberto, e mesmo assim saíram em 9,5 horas US$ 3,64 bilhões, 60,7% do que saiu naquela semana inteira. Contada por hora, a distância cresce:

Em 9,5 horas, a saída da Binance correu 10,7 vezes mais depressa que na semana sem a Mazars

Saída líquida em 9,5 horas
3,64  
Saída líquida na semana de 2022
6,    
Fração do volume de 2022 que já saiu
0,6067
Janelas de 9,5 horas numa semana
17,6842
Ritmo por hora agora, contra o de 2022
10,7284
Hipótese do exercício: a semana de dezembro de 2022 contada como sete dias corridos, com saída em ritmo constante nas duas janelas. A saída de 2022 é a do Mais Retorno. Valores em US$ bilhões. Fonte: Digital Today, citando a CoinPost, 2/11/2026.

A conta supõe ritmo constante nas duas janelas. Por isso ela mede a velocidade da saída, e não quanto ainda vai sair.

Binance é segura? O saldo lá continua um crédito contra a corretora

Cripto deixada numa corretora fica sob a chave privada dela, o código que autoriza mover a moeda na rede. O saldo na conta é a promessa de que a corretora entrega a moeda quando o cliente pedir. O FGC, o fundo que garante depósitos em banco, não cobre essa promessa. A Binance diz guardar os ativos dos clientes brasileiros em carteiras frias, sem conexão com a internet, e a chave delas segue com a corretora.

Sozinho, o SAFU, de cerca de US$ 1 bilhão, cobriria 15,9% do roubo de outubro. O resto do valor separado veio do caixa, por decisão da empresa. O cliente ficou sem perda porque a Binance quis e pôde pagar, e nenhuma regra a obrigava a isso.

A tarefa que o roubo deixa é um inventário: quanto do patrimônio em cripto está em cada corretora e quanto está sob chave própria. Num exemplo, se você tem R$ 20 mil em cripto, com R$ 15 mil na Binance e R$ 5 mil numa carteira própria, 75% dependem da promessa de uma empresa só. Com as posições de várias corretoras reunidas num lugar só, essa porcentagem se confere de uma vez. O texto sobre onde guardar criptomoedas compara as duas pontas, da corretora à chave própria.

Perguntas frequentes

SAFU é o fundo de reserva que a Binance mantém para cobrir perdas de clientes em incidentes como roubos. O nome vem de Secure Asset Fund for Users. É dinheiro da própria corretora: ela decide quando e quanto usar, e o cliente não tem direito a ele como tem ao FGC num banco. Quando o rombo passa do tamanho do fundo, o resto depende do caixa da empresa.
Só em parte. Se a cripto dos clientes estiver emprestada na data de corte, as carteiras mostram menos do que os saldos, e a prova acusa a falta. Se o empréstimo começar depois da data, ou voltar antes dela, a prova não vê. Ela também não mostra se a empresa tomou dinheiro emprestado para encher as carteiras na data de corte. O ativo aparece na lista, e a dívida que o pagou fica fora.
Carteira fria é a que guarda a chave privada fora da internet, num aparelho ou num cofre sem conexão. Ela dificulta o ataque pela rede, porque a chave não fica num servidor que se alcança de fora. A carteira fria muda onde a chave está, e não de quem ela é. Numa corretora, a chave continua com a empresa, e o saldo do cliente segue sendo uma promessa de entrega.
Depois do roubo de 29 de outubro, a Binance diz que os saldos foram preservados, e os saques voltaram em 1º de novembro. O saldo continua sendo um crédito contra a corretora, sem FGC. Se uma corretora quebra, o cliente vira credor e recebe o que sobrar, na ordem que o processo definir. A prova de reservas não diz quanto sobraria, porque não mostra as outras dívidas.

Fontes

  1. Tecnoblog: Binance perde US$ 6,3 bilhões no maior roubo de criptomoedas do mundo (valor roubado, R$ 33,9 bilhões, e congelamento pela Tether e pela Circle) (30 de outubro de 2026)
  2. Cryptobriefing: Binance first proof of reserves snapshot (US$ 6,34 bilhões separados, cerca de US$ 5 bilhões nos tokens roubados) (30 de outubro de 2026)
  3. Cryptoticker: Binance proof of reserves na segunda-feira, US$ 6,34 bilhões (o que a prova compara e o que deixa de fora) (2 de novembro de 2026)
  4. Digital Today, citando a CoinPost: Binance sees US$ 3.64 billion net outflows after withdrawals resume, deposited assets down 2.1 percent (2 de novembro de 2026)
  5. bpmoney: Tenho criptomoedas na Binance, o que acontece com meu dinheiro? (SAFU como reserva privada e carteiras frias dos clientes brasileiros) (30 de outubro de 2026)
  6. Mais Retorno: Binance, empresa contratada para garantir reservas de clientes interrompe trabalho (Mazars e US$ 6 bilhões de saques na semana) (16 de dezembro de 2022)

Este artigo é análise da Vesuvian, publicada com fins informativos. Não constitui recomendação de compra ou venda de qualquer ativo, nem promessa ou projeção de rentabilidade. Toda decisão de investimento é de responsabilidade de quem a toma. Rentabilidade passada não assegura rentabilidade futura. Produzido pela Equipe Vesuvian com uso de inteligência artificial e revisão editorial. Veja a política editorial.