O arcabouço fiscal limita quanto o gasto federal pode crescer a cada ano. A despesa sobe 70% do que a receita subiu acima da inflação, nunca menos de 0,6% nem mais de 2,5% reais. A regra não olha a dívida: com a receita parada, o piso faz o gasto crescer do mesmo jeito. Com a dívida em 82,9% do PIB em setembro, a Selic paga 8,58% acima da inflação esperada.
A regra do gasto está no artigo 5º da Lei Complementar 200, de 30 de agosto de 2023. Ela amarra o crescimento da despesa federal ao da receita, os dois medidos acima da inflação. Se a meta do ano anterior foi cumprida, o gasto pode crescer 70% do que a receita cresceu. Dois limites fixos cercam essa conta: a despesa sobe no mínimo 0,6% e no máximo 2,5% reais ao ano.
Lida ao contrário, a regra mostra onde cada limite passa a mandar. Para o gasto chegar ao teto, a receita precisa crescer 3,57% acima da inflação, porque 70% de 3,57% dão 2,5%. O que a receita crescer além disso não vira despesa naquele ano. Na outra ponta, o piso de 0,6% equivale a 70% de uma alta real de 0,86% da receita.
Abaixo desses 0,86%, o gasto cresce mais depressa que a receita. Com a receita parada ou em queda, a despesa sobe 0,6% acima da inflação do mesmo jeito. Nenhum termo da conta olha para o tamanho da dívida. A regra controla a velocidade do gasto, e a dívida resulta do que a receita, o gasto e o juro fizerem.
Esse trecho perto do piso é onde a economia de 2027 pode cair. O Focus de 3 de novembro, a pesquisa semanal do Banco Central com economistas, espera PIB de 1,2% em 2027. Se a receita crescer no ritmo do PIB, o gasto pode subir 0,84% acima da inflação, a 0,24 ponto do piso.
No ano seguinte a uma meta descumprida, a fração cai de 70% para 50%. O piso e o teto não mudam, e por isso a punição desloca os dois pontos de virada. A receita passa a precisar crescer 5% real para levar o gasto ao teto, e o piso manda até 1,2%. A conta, nas duas versões da regra:
A receita precisa crescer 3,57% real para o gasto chegar ao teto de 2,5%, e 5% depois de uma meta descumprida
A linha do meio mede a punição. Com a meta cumprida, cada ponto de gasto acima da inflação pede 1,43 ponto de receita; com a meta descumprida, pede 2. O aperto pesa quando a receita cresce bem e some quando ela cresce pouco. No trecho em que o piso já mandava, a despesa sobe o mesmo nas duas versões.
O descumprimento tem uma segunda consequência, fora do limite de gasto. Ele aciona as vedações do artigo 167-A da Constituição, mais amplas se a meta falhar pelo segundo ano seguido. E a meta vem com uma faixa: pelo artigo 6º da lei, um resultado até 0,25 ponto do PIB acima ou abaixo dela conta como meta cumprida.
Pela reportagem da Folha de S.Paulo de 5 de novembro, a meta de 2027 é um superávit de pelo menos R$ 8,5 bilhões. O número vale depois de tirar da conta as despesas que a regra exclui. O orçamento que o Executivo mandou ao Congresso traz R$ 18,6 bilhões de superávit.
Em reais, a faixa depende do PIB. A dívida bruta do governo geral somava R$ 11,1 trilhões em setembro, 82,9% do PIB, pelo dado do Banco Central divulgado no fim de outubro. Dividir um número pelo outro dá um PIB de R$ 13,4 trilhões, e um quarto de ponto dele são R$ 33,5 bilhões.
| O número de 2027 | R$ bilhões | Vezes a meta |
|---|---|---|
| Meta de superávit | 8,5 | 1,0 |
| Superávit no orçamento do Executivo | 18,6 | 2,2 |
| Banda de 0,25 ponto do PIB, para cada lado | 33,5 | 3,9 |
Medida pelo PIB de setembro, a faixa de tolerância para cada lado é quase quatro vezes a própria meta. O resultado que cai dentro dela conta como meta cumprida. Por isso a fração de 50% só passa a valer se o resultado sair da faixa inteira, e não quando fica abaixo dos R$ 8,5 bilhões.
Na mesma reportagem, a Folha informa que o governo estuda duas mudanças. A primeira torna permanente o corte no limite de gasto sempre que houver bloqueio para cumprir a meta. A segunda estende o contingenciamento, o bloqueio de verba durante o ano, às despesas obrigatórias.
A diferença para a regra atual está na base. Hoje, o bloqueio vale para o ano em que acontece, e o limite seguinte se calcula sobre a base cheia. Com o corte permanente, o valor bloqueado sairia da base. O crescimento permitido passaria a incidir sobre um número menor em todos os anos seguintes.
A mudança mexe na base e deixa o piso onde está. A despesa continuaria a subir 0,6% acima da inflação com a receita parada, agora sobre uma base menor depois de cada bloqueio. Por enquanto, a mudança é um estudo noticiado. Como o limite está escrito na Lei Complementar 200, mudá-lo depende de alterar a lei, e até lá o limite de 2027 segue o artigo 5º como está.
Gasto e dívida mexem na inflação esperada e no prêmio que o Tesouro paga para se financiar. Por isso o Banco Central olha os dois quando decide a Selic. A dívida bruta de setembro está no maior nível desde 2021, depois de subir 4,3 pontos do PIB no ano. Como parte dela acompanha a Selic, cada ponto de juro volta como custo para o próprio fiscal.
Em 4 de novembro, o Copom manteve a Selic em 13,75% ao ano e interrompeu o ciclo de cortes depois de cinco reuniões, como mostra o histórico da Selic. O Focus da véspera já esperava menos corte. A Selic do fim de 2026 subiu de 13,25% para 13,5%, e o IPCA de 2026, de 5,19% para 5,22%.
O juro que pesa na carteira é o real. O mesmo Focus espera IPCA de 4,76% em 2027, que usamos como aproximação da inflação dos 12 meses à frente. Descontada essa inflação, o juro real ex-ante, o que a Selic paga acima da inflação esperada, é de 8,58% ao ano: 1,1375 dividido por 1,0476, menos 1. Pela inflação passada, o IPCA de 4,58% em 12 meses até setembro, o juro real é de 8,77%.
O piso e a faixa em volta da meta deixam a dívida sem um caminho definido na regra. É essa incerteza que o Tesouro paga como prêmio, e ela aparece na distância entre os títulos do Tesouro Direto.
Em 3 de novembro, os prefixados pagavam acima de 15% ao ano e o IPCA+, acima de IPCA mais 8%, pelas taxas noticiadas no dia. Dividir 1 mais a taxa do prefixado por 1 mais o juro real do IPCA+ dá a inflação que empata os dois:
Prefixado acima de 15% e IPCA+ acima de 8% embutem 6,48% de inflação, 1,72 ponto acima do Focus
A inflação implícita junta a inflação que o comprador do prefixado espera e o prêmio que ele cobra pela incerteza dela. O fiscal alimenta as duas parcelas. Como as taxas são os pisos de cada família e os vencimentos não coincidem, a conta dá a ordem de grandeza; a leitura prazo a prazo está no artigo sobre a curva de juros futuros.
| Título | O que paga | Onde o fiscal entra |
|---|---|---|
| Tesouro Selic | a Selic de cada dia útil, hoje 13,75% ao ano | no nível de juro que o Copom mantém |
| Tesouro Prefixado | uma taxa fixa, acima de 15% ao ano | na inflação implícita de 6,48%, aceita ao travar a taxa |
| Tesouro IPCA+ | IPCA mais juro real fixo, acima de 8% | no prêmio do juro real travado até o vencimento |
O prefixado a 15% rende mais que o IPCA+ enquanto a inflação média até o vencimento ficar abaixo de 6,48%. Se o IPCA vier nos 4,76% do Focus, o prefixado paga 9,77% acima da inflação, 1,77 ponto além do IPCA+. Em R$ 100 mil, são R$ 1.775 a mais de poder de compra no primeiro ano, antes do imposto. Com inflação média acima de 6,48%, a vantagem passa para o IPCA+, e a conta do prefixado por vencimento mostra onde fica o empate em cada título.
Fontes
- Planalto: Lei Complementar 200/2023, o regime fiscal sustentável (arts. 5º e 6º) (30 de agosto de 2023)
- InfoMoney, sobre a Folha de S.Paulo: governo estuda corte permanente no teto de gastos para conter a dívida (5 de novembro de 2026)
- Agência Brasil: mercado eleva projeção para inflação, juros e dólar em 2026 (Focus de 3/11) (3 de novembro de 2026)
- Jornal do Comércio: dívida bruta do Brasil se mantém em 82,9% do PIB em setembro, mostra BC (29 de outubro de 2026)
- Valor Econômico: Copom mantém a Selic em 13,75% e interrompe o ciclo de cortes (4 de novembro de 2026)
- InvestNews: Tesouro Direto com prefixados acima de 15% e IPCA+ acima de 8% (3 de novembro de 2026)
- Banco Central do Brasil, SGS 13522: IPCA acumulado em 12 meses (1 de setembro de 2026)
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