O Tesouro Direto suspendeu às 10h de 26 de outubro a compra e o resgate dos prefixados e do IPCA+. A taxa do mercado tinha se afastado da oferecida, e a suspensão impede negociar a preço velho. O risco estava no prazo: no mesmo dia, o IPCA+ 2032 caiu 7,1% e o 2050, 23,6%. Quem leva ao vencimento recebe a taxa da compra; quem resgata antes realiza a queda.
Às 10h da segunda-feira, 26 de outubro, o Tesouro Direto suspendeu a compra e o resgate dos prefixados e do Tesouro IPCA+. O Renda+ e o Educa+ pararam junto, e o Tesouro Selic e o Tesouro Reserva seguiram abertos. Quem abriu o site e achou o Tesouro Direto fora do ar viu essa suspensão parcial. Era o primeiro dia útil depois do segundo turno da eleição presidencial.
O Tesouro Direto não negocia a preço livre. Pela regra divulgada em 2018, o Tesouro fixa a taxa de cada título e a atualiza três vezes por dia. Os horários são 9h30, 12h e 15h30, e entre um e outro a taxa da tela fica parada. Quando a taxa dos mesmos títulos entre bancos e fundos se afasta demais da oferecida, o Tesouro suspende a negociação até reprecificar.
Sem a suspensão, o Tesouro venderia acima do preço de mercado a quem comprasse e recompraria acima dele de quem resgatasse. O devedor, o vencimento e a taxa contratada de cada título continuaram os mesmos. Nada na suspensão diz respeito à capacidade do Tesouro de pagar.
O afastamento daquela segunda foi grande. Pelas taxas publicadas pela Gazeta do Povo, o IPCA+ 2032 pagava IPCA mais 6,76% ao ano na sexta, 23 de outubro. Na segunda, pagava IPCA mais 8,10%. O Prefixado 2032 foi de 12,89% para 15,78% ao ano.
No mesmo dia, o Tesouro cancelou os três leilões da semana. Eram o de NTN-B, o nome técnico do IPCA+, na terça, e os de NTN-F e LTN, os prefixados, na quinta. Numa operação extraordinária, recomprou 8,4 milhões de títulos prefixados, cerca de R$ 7,1 bilhões. Com a taxa mudando dentro do dia, o Tesouro parou de vender dívida nova e recomprou parte da que circulava.
O preço de um título com taxa travada anda ao contrário da taxa de mercado. Para o mesmo IPCA+ 2032 render IPCA mais 8,10% em vez de 6,76%, quem o compra precisa pagar menos por ele. A taxa subiu 1,34 ponto, e o preço caiu 7,1% contra o de sexta. Dividido um pelo outro, cada ponto de taxa tirou 5,3% do preço.
Esse 5,3 é, aproximadamente, a duração do título em anos, o prazo médio até o dinheiro voltar ao dono. Quanto mais longe o vencimento, mais anos a taxa nova pesa no desconto, e maior o tombo pelo mesmo ponto. O IPCA+ 2050 vence 18 anos depois e caiu 23,6% no mesmo dia, 3,3 vezes o tombo do 2032. Em R$ 10.000 de cada um, a diferença em reais fica assim:
Em R$ 10.000 de cada título, o preço de 26/10 tirou R$ 710 do IPCA+ 2032 e R$ 2.360 do 2050
O emissor e o indexador dos dois títulos são os mesmos, e o que os separa é o prazo. Por isso o prazo pesa mais que a taxa na escolha do Tesouro Direto. Quem escolheu o vencimento mais longo levou junto essa sensibilidade ao juro do dia.
Quem comprou o IPCA+ 2032 na sexta, a IPCA mais 6,76% ao ano, recebe essa taxa até o vencimento, com ou sem suspensão. A taxa contratada não muda com o preço da tela. O que muda é quanto o título valeria se vendido naquele dia.
A queda do 2032 também se lê em taxa. O título comprado na segunda paga 1,34 ponto ao ano a mais que o de sexta, por cerca de 5,3 anos de duração. Em R$ 10.000, são perto de R$ 134 por ano, e 5,3 anos disso dão os R$ 710 da marcação. A perda na tela é, aproximadamente, esse rendimento a menos, trazido para a data da marcação.
É o mecanismo da marcação a mercado no Tesouro Direto, e ele se desfaz no vencimento. No último dia, o IPCA+ vale o valor de face corrigido pelo IPCA, qualquer que tenha sido o caminho do preço. Para quem segura, o custo de 26 de outubro é de oportunidade. O dinheiro segue rendendo a taxa de sexta, enquanto o mesmo título passou a pagar mais a quem compra depois.
Durante a suspensão, os títulos parados não tinham resgate. Quando a negociação volta, o resgate sai pela taxa daquele horário, e aí a marcação vira perda realizada. Com os preços de segunda, quem resgatasse os R$ 10.000 da conta acima levaria a perda inteira, nos dois prazos.
A suspensão não poupa ninguém dessa perda; ela só impede que o resgate saia a preço de sexta. Na reabertura, o preço é o que a taxa do horário der, acima ou abaixo do de segunda. Quem precisava do dinheiro no dia 26 o recebe só então.
O Tesouro Selic ficou aberto o tempo todo e não teve esse tombo. O resgate dele sai perto do valor acumulado mesmo num dia como aquele, enquanto os títulos de taxa travada esperam a reprecificação.
| Título | Em 26 de outubro | Levado ao vencimento | Resgatado antes |
|---|---|---|---|
| Tesouro Selic | seguiu aberto, sem tombo de preço | rende a Selic de cada dia útil | sai perto do valor acumulado do dia |
| IPCA+ 2032 | taxa de 6,76% para 8,10%, preço 7,1% menor | paga a taxa da compra mais o IPCA | realiza a queda contra a sexta |
| IPCA+ 2050 | preço 23,6% menor | paga a taxa da compra mais o IPCA | realiza uma queda 3,3 vezes a do 2032 |
| Prefixado 2032 | taxa de 12,89% para 15,78% | paga a taxa da compra, sem correção pela inflação | realiza a queda do preço do dia |
O que separa os dois caminhos é a data em que o dinheiro precisa voltar. Quem tem IPCA+ 2032 e precisa do dinheiro antes do vencimento fica exposto ao preço do dia do resgate. Quem não precisa fica com a taxa da compra. Para ver o efeito na carteira inteira, a rentabilidade mostra quanto a carteira caiu com a marcação e quanto tempo levou para voltar.
A alta do prefixado foi mais que o dobro da do IPCA+ do mesmo ano, e a diferença vem da inflação. O IPCA+ paga a inflação que vier mais um juro real fixo. O prefixado paga uma taxa só, e quem o compra assume a inflação até o vencimento.
Dividir 1 mais a taxa do prefixado por 1 mais o juro real do IPCA+ dá a inflação de empate. É a média anual de IPCA que faz os dois títulos renderem o mesmo até 2032. Ela carrega também um prêmio pela incerteza da inflação, e por isso não serve como previsão pura. Com as taxas de sexta e de segunda, a conta fica assim:
O Prefixado 2032 passou a embutir 7,10% de inflação ao ano, ante 5,74% na sexta
A inflação de empate subiu 1,36 ponto, quase o mesmo que o juro real do IPCA+, que subiu 1,34. O salto do prefixado se dividiu quase meio a meio entre juro real e inflação embutida até 2032. A subtração simples das taxas, na última linha, exagera a inflação embutida, porque esquece que o IPCA incide também sobre o juro real.
O IPCA em 12 meses estava em 4,58% em setembro, pela série do Banco Central. A inflação de empate de segunda ficou 2,52 pontos acima dele. Comprado a 15,78%, o prefixado rende mais que o IPCA+ 2032 de segunda se o IPCA médio até lá ficar abaixo de 7,10% ao ano. Acima disso, rende menos.
Comprar o prefixado a essa taxa é uma opinião: a de que a inflação até 2032 fica abaixo da que a curva embutiu na segunda. A mesma conta, para quem decide entre os dois títulos, está no artigo sobre o Tesouro Prefixado em 2026.
A meta da Selic estava em 13,75% ao ano em 28 de outubro. Descontado o IPCA de 4,58% em 12 meses, o Tesouro Selic paga 8,77% de juro real: 1,1375 dividido por 1,0458, menos 1. A conta usa a inflação que já passou, e não a esperada.
Na sexta, o IPCA+ 2032 pagava 2,01 pontos abaixo desse juro real; na segunda, 0,67 ponto abaixo. O juro real travado até 2032 quase alcançou o do Tesouro Selic, que vale um dia de cada vez. Com a inflação esperada no lugar da passada, a mesma conta é o juro real ex-ante, que publicamos dia a dia.
Com o juro real longo tão perto do curto, a curva de 26 de outubro não embutia queda grande do juro real até 2032. Para quem tem IPCA+ ou prefixado e leva o título ao vencimento, aquela segunda mudou o preço na tela e manteve a taxa recebida. Mudou também a comparação, porque o IPCA+ 2032 de segunda trava até lá um juro real 0,67 ponto abaixo do Tesouro Selic. Para quem precisa resgatar antes, o prazo decide o tamanho da conta: no 2050, a mesma segunda levou quase um quarto do preço.
Fontes
- Gazeta do Povo: Tesouro Direto suspende negociações após disparada dos juros (26 de outubro de 2026)
- Gazeta do Povo: Tesouro Nacional trava venda de títulos públicos após disparada dos juros (26 de outubro de 2026)
- InvestNews: Tesouro Direto suspende prefixados, IPCA+, Renda+ e Educa+ em 26/10 (26 de outubro de 2026)
- InfoMoney: a regra de precificação e suspensão do Tesouro Direto (24 de maio de 2018)
- Banco Central do Brasil, SGS 432: meta da taxa Selic (28 de outubro de 2026)
- Banco Central do Brasil, SGS 13522: IPCA acumulado em 12 meses (1 de setembro de 2026)
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